"Acham que ser correspondente é sexy", afirma Todd Benson, da Reuters

Camilla Demario | 09/10/2013 10:30
Para abertura do terceiro dia do seminário internacional mídia.JOR, o jornalista da Reuters, Todd Benson, foi um dos convidados do painel “Diálogos VI – Correspondentes estrangeiros no Brasil: pautas e dificuldades de adaptação e apuração”, com participação também dos correspondentes Juan Arias, do El País, e Pierre Ausseill, da AFP.

Todd Benson nasceu na Inglaterra, mas foi criado na Califórnia, nos Estados Unidos, e se formou em jornalismo pela Universidade da Califórnia, com mestrados em Chicago (EUA) e na Espanha. Já trabalhou para Dow Jones, The New York Times, fez coberturas em Cuba. Argentina, Paraguai, Venezuela. Atualmente, é diretor de redação da agência Reuters no Brasil.

Crédito:Af Ribeiro
Todd Benson diz que o jornalismo brasileiro é o melhor da América Latina

IMPRENSA - Os jornalistas fazem confusão de como as pessoas enxergam seu trabalho e como é de fato?
Todd Benson - Ah sim, totalmente. É uma distância enorme. Eu sempre digo que as pessoas acham que a vida de correspondente é muito sexy, chama muita atenção. Tem momentos da nossa vida que são incríveis, como estar cobrindo um fato histórico e saber que é um fato histórico. Fui duas vezes para a Venezuela em momentos cruciais: quando o Hugo Chavéz morreu e as eleições logo depois, e ali você sabe que está acompanhando a história. Então, nessas horas, você pensa “nossa, é uma carreira muito legal”. Mas tem um dia a dia pesado, principalmente dentro de uma agência de notícias em tempo real como a Reuters que, provavelmente, é muito parecido com o de um jornalista da agência Estado ou da Bloomberg, não é diferente da vida “normal”.

Qual a principal diferença entre o jornalismo produzido no Brasil e nos Estados Unidos?
São dois estilos de jornalismo bem diferentes. Eu começaria dizendo que na América Latina o jornalismo brasileiro de longe é o melhor. Os jornais aqui são muito bons, a grande imprensa realmente descobre coisas, vai atrás de corrupção, bate muito nos políticos. O que eu acho que falta no jornalismo brasileiro é o que você vê na revista Piauí, aquele jornalismo de contar uma história elaborada. O jornalismo diário americano costuma ser mais apurado e cuidadoso na hora de fazer o texto, o produto final é um pouco mais bonitinho para o leitor. Também tem outra coisa: o jornalismo anglo-saxão, principalmente nos EUA, tem um rigor maior em relação ao uso de informação em off. Eu acho que a imprensa brasileira tem mais liberdade para usar o off do que o jornalismo americano.

Na sua opinião isso é bom ou ruim?
Tem seu lado positivo porque você acaba revelando coisas importantes. Mas, às vezes, é um desserviço ao leitor quando diz “segundo a Folha apurou”, apurou com quem? No jornalismo americano você tem que dar uma indicação maior da onde veio essa informação, tipo “uma fonte do governo”, ou “uma pessoa próxima”, e acho que somos um pouco mais cuidadosos para dizer uma informação que poderia difamar alguém. A gente procura os bons jornalistas no Brasil e confiar em quem sempre acerta. Mas se você é recém-chegado aqui e não tem esse conhecimento de quem é confiável é mais difícil.

No Brasil, qual cobertura foi mais importante para você?
A mais marcante foi cobrir a eleição de 2002, quando o Lula ganhou. São momentos da história que você sabe que serão lembrados como divisor de águas de um país. É um momento que eu vou lembrar daqui a 10, 15 anos, falando da minha experiência aqui.

Se você tivesse que dar uma dica para quem quer ser correspondente internacional, qual seria?
Eu costumo recomendar às pessoas que estão estudando jornalismo para estudar economia. Acho que é muito difícil ser correspondente estrangeiro hoje em dia sem entender economia, porque a demanda dos jornais, das agências, dos lugares que vão te contratar a demanda é muito grande. Muitas pessoas entram para o jornalismo imaginando a vida de correspondente entrevistando o presidente, viagens, mas grande parte do trabalho é escrever sobre a economia do país.

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