Maurício Ricardo e Ricardo Feltrin discutem o papel da charge no jornalismo

Camilla Demario | 09/10/2013 17:30
O painel de encerramento da 2ª edição do seminário internacional mídia.JOR teve como convidado Maurício Ricardo, chargista e músico, e como moderador Ricardo Feltrin, colunista do UOL e autor do livro "Como Lidar com Crises, Jornalistas e Outros Predadores". Eles discutiram o papel da charge no jornalismo atual, as possibilidades do online e o peso dos comentários de internautas sobre o trabalho da imprensa. Confira um trecho do bate-papo entre os convidados:

Crédito:Alf Ribeiro
Para Maurício Ricardo, as charges podem ser linkadas às notícias

Ricardo Feltrin – Você além de ser chargista é também músico. O que vem antes quando vai criar seu trabalho?
Maurício Ricardo – Tem dias que você acorda, lê a notícia e de cara vem logo o refrão da música, é uma sacada. Se eu achar que a notícia rende paródia, vou procurar no meu repertório. Com a renovação do público jovem eu também faço uma picaretagem — no top 10 das músicas do dia, escutar em loop umas 10 vezes e depois fazer uma paródia em cima disso. Hoje, passamos para uma era de links soltos e nem os jornais sacaram que é mais legal colocar a charge dentro da notícia, porque mesmo na internet os sites são divididos tem editorias e não necessariamente o cara vai voltar e ler a notícia. Aí cabe a discussão de charge como notícia, porque você tem que explicar senão o cara boia.

Ricardo Feltrin – Quando o jornal traz notícias trágicas, o chargista some?
Maurício Ricardo – O equívoco clássico é achar que a charge é só humor. Eu tenho uma brincadeira no meu site que é o “Céu do Charges”. Quando o papa João Paulo II morreu fiz uma sobre ele, todos os grandes defuntos estão lá. Pessoas religiosas questionam 'como algumas foram para o céu?' e eu explico que o céu é meu e eu faço o que eu quero (risos). Mas eu não exploro o tema trágico, não fiz charge da boate Kiss, por exemplo, o que eu fiz só foi tirar a foto do meu perfil do Facebook com a banda Kiss que eu tinha colocado, por coincidência, um dia antes. O que os internautas cobram é homenagem, mas eu acho de péssimo gosto.

Ricardo Feltrin – Entrevistei recentemente o Emílio Surita, que tem uma visão radical sobre humor e acha que estamos uma fase de chatice. Você tem assuntos tabus?
Maurício Ricardo – Eu não me permito qualquer coisa. Como pai, como responsável por um mundo melhor, não vejo graça ofendendo minoria, mesmo sabendo que dá audiência. Você pode se valer de minoria se for para passar uma mensagem, brincar com o preconceito. No Brasil falta as celebridades entenderem o humor e um caso clássico foi do Rafinha Bastos, que disse que a Wanessa Camargo, mesmo grávida, daria um caldo, não que queria um sexo intrauterino. E tem os “haters”. Quando está passando a charge do "BBB" tem comentários no Twitter 'por que esse cara não morre?'. Aí eu vou conversar com ele e brinco 'tenho dois filhos, só pede para eu perder o emprego' (risos), ele muda o tom.

Ricardo Feltrin – Eu admiro que você tem contato com o internauta, eu faço programa no UOL e bloqueei o comentário porque eu ia para casa triste, hoje melhorei minha autoestima, durmo bem, acordo bem e tenho cara de pau de continuar fazendo o programa (risos). Para você, qual tipo de humor faz mais sucesso hoje? 
Maurício Ricardo – O humor que faz sucesso hoje é o cartoon, não a charge. Porque, se você colocar muita referência de notícia, eles não vão entender a piada. Eu tinha no meu site o “Sobre a charge”, uma seção para o leitor poder ler sobre a notícia e saber sobre o que se trata. Tem gente que tem saudade dessa seção, que não existe mais. Hoje os veículos não entenderam que tem dois sites engoliram todo mundo, que é o Facebook e o Youtube, porque o internauta fica tão ocupado clicando no que as pessoas postam que não vê a home dos portais.

Ricardo Feltrin - E muitas vezes perdem a chance de viver também (risos).

O mídia.JOR acontece nos dias 07, 08 e 09/10, no teatro da Aliança Francesa, em São Paulo (SP). O evento, realizado por IMPRENSA, é patrocinado pela Oi, com apoio da Aliança Francesa, Fenaj, Abert, Abradi, Aner e ANJ.

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