Mário Magalhães responde artigo de Chico Buarque sobre biografias não autorizadas

Redação Portal IMPRENSA | 17/10/2013 11:00

Nesta quinta-feira (17/10), o jornalista e biógrafo Mário Magalhães respondeu em carta aberta o artigo do compositor e escritor Chico Buarque, publicado em O Globo na última quarta (16/10), sobre a polêmica das biografias não autorizadas.


Crédito:Divulgação
Jornalista contrapõe argumentos de Chico Buarque sobre biografias não autorizadas

No artigo, Buarque defende que Roberto Carlos tem direito a preservar sua vida pessoal e que os familiares do biografado devam receber por obras de cunho biográficas, usando como exemplo as filhas do ex-jogador Mané Garrincha.

Magalhães, que durante nove anos se dedicou à biografia do líder comunista Carlos Marighella, iniciou o texto, intitulado "Meu caro Chico", dizendo que o grupo "Procure Saber", do qual o cantor é signatário, batalha para eternizar um artigo do Código Civil polêmico, que diz que "a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais”.


O jornalista lembra que Buarque lançou a música "Apesar de você", contestatória ao regime militar, durante o período presidido pelo general Médici, momento onde "agentes públicos torturavam milhares de pessoas". No entanto, se todos os escritores seguirem a ideia do grupo "Procure Saber", uma biografia de militar só poderia ocorrer com autorização dos herdeiros, o que geraria um chamado "rame-rame laudatório" da família.


"A legislação em vigor permite que Fernando Collor barre uma biografia não autorizada, em nome de sua “boa fama”. Idem o juiz Lalau e o torturador Brilhante Ustra. É assim porque a lei vale para todos, artistas ou não. Pense bem: a prerrogativa de contar a história passou ao coronel Ustra", diz Magalhães.


Após elogiar o artigo de Chico, lembra que o cantor comentou sobre a biografia de Cabo Anselmo, personagem sombria do período militar e comenta que, caso mudassem as regras, seria impossível que a trajetória marcada por mortes do ex-agente da repressão fosse publicada sem que ele definisse o conteúdo, o que feriria o interesse comum, visto que conteria apenas sua versão sobre os fatos.


Entretanto, Magalhães concordou com a "inaceitável impunidade de biógrafo leviano ou criminoso que difunda informação “infamante ou mentirosa”. Mas entende que a decisão tem de ser da Justiça, e não de censura prévia e ressalta "o conhecimento da história consagra-se como direito humano. Roberto Carlos é, sim, dono da vida dele. Mas não é dono da história".


"Biografias são reportagens, que constituem gênero do jornalismo. Pagar royalties a personagens descaracteriza biografias não autorizadas _você propõe mesmo dar uns caraminguás aos netos do Médici?", provoca o jornalista.


Magalhães completa dizendo que futebol e música também têm “fins comerciais” e que, da mesma forma, a imprensa os tem quando publica perfis, mas dispara: "E se o Sarney e o Bolsonaro resolverem cobrar? Devemos reeditar a censura de outrora ou persistir no bom combate a ela?"


Por fim, o jornalista pede "perdão" pelo tom e diz que Buarque "merece interlocutores do “tempo da delicadeza” evocado em “Todo o sentimento”. 


Leia também


Comentários
Termos de Uso | Comentários sujeitos a moderação
Comentário:
Escolha uma das opções abaixo para comentar:
Login - Portal Imprensa
Portal Imprensa
Facebook