Críticos revelam qual a influência da imprensa nos principais prêmios de cinema

Lucas Carvalho* | 30/12/2013 15:45
É comum ler em veículos especializados em cinema ou críticas de filmes algo do tipo “este é um forte candidato ao Oscar”. Coincidentemente ou não, muitas vezes o filme acaba, de fato, sendo indicado, ou até mesmo conquistando a famosa estatueta. Em época de listas de prêmios e de apostas por parte de críticos e jornalistas, IMPRENSA decidiu apurar como são feitas essas previsões, e que relação esses palpites podem ter com o resultado final.

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Para Rubens Ewald Filho, existe um lobby a favor de diretores ou artistas

No último dia 12 de dezembro, a Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood anunciou os indicados a um dos principais prêmios do cinema internacional, o Globo de Ouro. Grande parte da mídia especializada o considera uma espécie de “termômetro” de outra grande premiação, como Oscar. Porém, as listas de indicados e vencedores de ambas as premiações não são produzidas pelas mesmas pessoas.

“A lista do Globo de Ouro é feita por jornalistas estrangeiros que cobrem Hollywood. São pessoas que vão vendo os filmes, participando de festivais. Ali você tem o ‘cheiro’ do que agradou as pessoas, o que está chamando a atenção. Com isso, consegue prever”, diz Marcelo Forlani, crítico de cinema e editor do site Omelete.

Ao contrário do Globo de Ouro, os indicados e vencedores do Oscar são apontados por profissionais do cinema, ou seja, diretores, roteiristas, atores, produtores, membros internacionais da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos.

Em 2012, sete dos nove indicados ao Oscar de melhor filme também foram indicados ao Globo de Ouro. O vencedor do prêmio de melhor filme, nas duas premiações, foi o mesmo: “Argo”, do diretor Ben Affleck. 

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Forlani acredita que críticas favoráveis dão visibilidade para os filmes

Para Forlani, o que leva a essa aproximação entre as duas listas é o chamado “efeito dominó”. “Uma indicação para um prêmio sempre chama a atenção, joga o holofote para o filme. Mais gente vai querer ver e ter essa tendência a votar nele”, diz.

Já o jornalista e crítico de cinema Roberto Sadovski, colunista do UOL, acredita que Oscar e premiações do tipo seguem um padrão técnico que facilita para a imprensa arriscar e acertar palpites. “Os bons filmes que se acumulam no fim do ano sempre dão uma pista do que está por vir. Às vezes, um filme entra no zeitgeist com firmeza: não significa ser o melhor, mas o que é impossível de fugir”.

Mesmo com essa padronização, surpresas podem acontecer. Sadovski lembra do caso do Oscar de 1999, em que o filme de um diretor até então desconhecido, o britânico John Madden, tirou o prêmio de melhor filme das mãos de um favorito da imprensa. “[O filme] ‘Shakespeare Apaixonado’ tirando o Oscar de ‘O Resgate do Soldado Ryan’ foi irreal. Essas coisas acontecem”, diz.

“O Resgate do Soldado Ryan” ganhou, entretanto, cinco estatuetas, incluindo o de melhor diretor para Steven Spielberg. O norte-americano já era vencedor do prêmio pelo filme “A Lista de Schindler”, de 1993, e é sempre cotado por jornalistas e veículos especializados como um forte candidato todos os anos. Para Marcelo Forlani, a fama e o nome que um diretor faz na indústria influencia e muito nas previsões da imprensa. “O último filme do Spielberg, o ‘Lincoln’, do ano passado, não foi muito bem criticado. Mas todo mundo conhece o Spielberg. Então é muito fácil ele ganhar votos, por conta do nome dele”.

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Roberto Sadovski diz que surpresas podem acontecer nas premiações

Segundo o jornalista e crítico de cinema Rubens Ewald Filho, esse tipo de "viralização" do potencial de um filme feito com base no nome dos realizadores é comum. Ele cita o último do ator norte-americano Tom Hanks, "Capitão Phillips", indicado em quatro categorias do Globo de Ouro. "Alguns [jornalistas] parecem fazer campanha pré-fabricada, como o filme do Tom Hanks. Nunca vi lobby igual pra ressuscitar sua carreira que está mal", diz.

Apesar de tudo isso, Ewald Filho acredita que essas previsões não devem ser levadas tão a sério. “O fato é que tudo surge de especulação antes mesmo que os filmes estreiem ou sejam vistos por alguém. Nem todos veem todos os filmes, nem os votantes, nem os jornalistas. Falam e palpitam sem saber se o filme é bom. Depois que a lista é anunciada, há pouco a se fazer a não ser especular novamente”, afirma.

Por conta disso, a influência da imprensa especializada não parece ser tão grande entre os responsáveis pelas listas de prêmios. Forlani acredita, porém, que a mídia pode ter papel importante entre membros da Academia que não viram todos os filmes. “Se um votante do Oscar não quer assistir os filmes, ou não teve tempo, ele pode dar uma olhada nas críticas dos veículos e dos jornalistas que ele confia e se basear nisso, mas aí vai da ética de cada um”, diz.

Sadovski segue o mesmo raciocínio e conclui: “talvez as listas de melhores filmes alimentem também, no caso do Oscar, a bagagem que os votantes da Academia têm antes de apontar seus favoritos. No fim das contas, bons filmes são bons filmes".

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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