"Eu fiz a escolha de contar a história dos invisíveis", diz Eliane Brum

Camilla Demario | 20/01/2014 09:30
Eliane Brum estreou no dia 26 de novembro de 2013 como colunista quinzenal de edição brasileira do jornal espanhol El País, quatro meses depois de sair da revista Época, onde foi colunista do online por quatro anos. Recentemente, lançou “A Menina Quebrada” (Arquipélago Editorial), uma coletânea com 64 das suas melhores colunas.

Vencedora da 5ª e 6ª edição do prêmio “Troféu Mulher IMPRENSA”, a jornalista concorre este ano na categoria Jornalista de Mídias Sociais, junto com Ana Brambilla (Ed. Globo/Blog Libellus), Cynara Menezes (Carta Capital), Denise Rothenburg (Correio Braziliense/Blog da Denise) e Julia Petit (Petiscos). 


Crédito:Divulgação
Eliane Brum é finalista na categoria Jornalista de Mídias Sociais da 10ª do "Troféu Mulher IMPRENSA"


Nascida em Ijuí (RS), trabalhou no jornal Zero Hora por 11 anos e foi repórter da Época por mais dez. É autora dos livros “Coluna Prestes - O Avesso da lenda” (Artes e Ofícios), “A vida que ninguém vê” (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e "O olho da rua" (Globo, 2008).

IMPRENSA - Depois de muito tempo no impresso, você foi para a web. O fazer jornalismo muda com essa mudança de plataforma?
Eliane Brum - A reportagem, assim como os artigos de opinião e as entrevistas pingue-pongue, exige o mesmo rigor de apuração, seja no impresso ou na internet. Mas acredito que a internet tenha vantagens sobre o impresso. A primeira delas é a possibilidade de os textos terem o tamanho que precisam ter para assegurar a profundidade, a complexidade e o contraditório que marcam o bom jornalismo. Mantenho uma coluna de opinião na internet desde 2009 – primeiro na revista Época, hoje no El País – e meus textos costumam ter, em média, de 15 a 20 mil caracteres. 

A internet também mostrou, pela medição da audiência e o tempo de permanência, que, ao contrário do que se dizia, o leitor lê, sim, textos longos. E gosta. E compartilha. A relação com o leitor é outra mudança interessante que a internet nos traz, na medida em que o leitor deixa de ser um consumidor passivo para também se tornar uma espécie de escritor, com seus comentários e colaborações. Os textos, na internet, tornam-se textos-debates e ganham uma vida mais viva e de maior duração. Por fim, atingem muito mais gente, inclusive em lugares onde antes o impresso não chegava. Recebo muitos e-mails de pessoas que estão começando a ter contato com o jornalismo pela internet, ampliando o seu mundo e a sua visão de mundo pela leitura e pela escrita na internet. E isso é maravilhoso.

Seus textos trazem como característica marcante o olhar dos personagens, um viés ainda pouco explorado – ou valorizado – na internet. Falta mais humanização nos textos jornalísticos?
Eu fiz uma escolha, como jornalista, que é a de contar a história dos invisíveis, dos sem voz, dos proscritos, daqueles que, em geral, ficam à margem da narrativa. Como eu, muitos outros repórteres fizeram essa escolha. Minha percepção é de que a internet, ao ampliar os narradores e as narrativas, também estimulou a criação de novos espaços de reportagem nos quais esse olhar se fortalece. E, assim, ampliou a escuta daqueles que, por muito tempo, estiveram fora ou pelo menos na periferia da narrativa hegemônica da imprensa. No Brasil, poderíamos dar o exemplo da Agência Pública, que tem investido em grandes reportagens, algumas delas por financiamento coletivo, e iniciativas recentes como o portal Amazônia Real, que busca trazer um outro olhar sobre as questões amazônicas, com repórteres que vivem na região. Não saberia como poderia existir um jornalismo “não humano”, já que o humano é justamente a carne da reportagem.

Sua indicação como finalista na categoria Jornalista de Mídias Sociais é um reflexo do seu trabalho em 2013. O que foi bacana/interessante fazer?
Tudo. Eu me entrego por completo ao que escrevo, já que esta é a minha expressão no mundo, é o que dá sentido à minha vida. Quando escrevo um artigo, que hoje é minha atuação mais frequente no jornalismo, já que tenho uma coluna quinzenal, este texto se transforma na coisa mais importante para mim naqueles dias, às vezes semanas, de apuração e de escrita. Acho que um colunista tem a obrigação de qualificar as questões do seu tempo histórico e, para dar conta disso, eu preciso apurar muito, estudar muito, duvidar muito. 

Em 2013 lancei o meu livro “A Menina Quebrada” (Arquipélago), com 64 das minhas melhores colunas, que busca ser um pequeno retrato desse momento histórico, a partir do meu olhar. Editar esse livro me deu a oportunidade de avaliar essa nova voz que eu assumi – e que se soma a todas as outras –, que é a da colunista de opinião. Tanto para saber se eu tinha conseguido fazer um diálogo de qualidade com a minha época, quanto para saber se eu queria continuar fazendo isso. Foi um ano bem rico e bem vivo. 

Fiz também uma grande reportagem, que conta uma história que considero muito importante e que precisava ser contada. Essa matéria deverá ser publicada nos próximos meses. Adoro ficar entregue a um tema só, totalmente abduzida, como exige a reportagem. Antes de 2013 terminar, ainda encerrei um novo livro, que agora estou revisando. E comecei um documentário que tem me trazido uma série de questões novas e bem desafiadoras.  Eu me sinto muito viva por escutar e contar histórias. 

Com Copa do Mundo e eleições, qual sua expectativa para 2014?

Acho que será um ano bem agitado, rico de sentidos e cheio de histórias. O Brasil vive um momento muito interessante e também muito imprevisível. Como eu acho que a melhor coisa para um repórter é não saber o que vai encontrar ao dobrar a esquina, estou muito animada com 2014.


O "Troféu Mulher IMPRENSA" é realizado e idealizado por IMPRENSA Editorial. Em 2014, a premiação celebra sua 10ª edição consecutiva, e vai homenagear as jornalistas que mais se destacaram em suas áreas de atuação em 2013. As votações vão de 14 de janeiro de 2014 até às 23h59 de 13 de fevereiro. Para mais informações e conhecer a lista de finalistas, clique aqui.


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