Sucesso no YouTube, Cauê Moura fala sobre comunicação com jovens na era digital

Lucas Carvalho* | 21/01/2014 16:00
O canal do YouTube “Desce a Letra” é descrito em sua página do Facebook com a seguinte frase: “VÍDEOS QUE OFENDEM A FAMÍLIA BRASILEIRA”. Em caixa alta, como alguém que grita para o internauta, algo que parece desconfortante à princípio, mas que busca provocar reflexão em seus mais de dois milhões de seguidores.

O publicitário Cauê Moura, idealizador do canal, estreou no YouTube em março de 2010 e, em quase quatro anos de atividade já soma mais 145 milhões de visualizações. A ideia do “Desce a Letra” é simples: falar de frente para uma câmera sobre qualquer assunto que considere pertinente e digno de um debate. Já no “Giro de Quinta”, outro programa do canal, Cauê seleciona as notícias mais inusitadas da semana para comentá-las com bom humor. E assim se criou o fenômeno.

Suas opiniões firmes, a estrutura simples dos vídeos em preto e branco, a linguagem debochada e coloquial e o visual “diferente” de Cauê o destacaram na esfera virtual e o colocaram como um dos principais comunicadores entre as novas gerações.

À IMPRENSA, ele conta sobre as origens do canal, as consequências da exposição livre de opiniões na internet e o segredo para o contato com os jovens, que cada vez mais se distanciam da chamada “grande imprensa”.

Crédito:Reprodução
Cauê Moura tem canal na web para comentar notícias e temas polêmicos

IMPRENSA: Como surgiu a ideia de fazer um canal no YouTube?
Cauê Moura: O “Desce a Letra” foi o primeiro. Eu o criei assim que terminei a faculdade de Publicidade e Propaganda e estava em busca de algum projeto paralelo, um negócio meio de hobby mesmo. Nunca imaginei que fosse virar profissão e fosse ter tanto acesso. Começou meio como uma brincadeira que eu fiz para internet, para mandar para alguns amigos, compartilhava nas redes sociais, até que começou a dar audiência, e, aos poucos, foi deixando de ser só brincadeira e foi virando trabalho.

E quando você decidiu fazer um programa só para comentar notícias?
O “Giro de Quinta” surgiu depois, quando eu já vivia disso. Eu achei que seria legal fazer um formato em que eu comentasse notícias, porque um problema que temos, às vezes, no “Desce a letra” é a falta de pauta. Comentando notícias isso deixa de ser um problema.

E que critério você usa pra selecionar as notícias?
Eu tento balancear na escolha das notícias entre assuntos que sejam relevantes e outros que sejam simplesmente divertidos. Mas, no geral, eu seleciono a notícia quando acho que ela é um bom entretenimento. Às vezes, leio uma manchete que sei que não vai agregar conhecimento pra galera, não é lance de crítica como os assuntos do “Desce a Letra”, mas eu sei que vai ser divertido. Vai muito no feeling, tem programa que é sério, outros onde tudo é na brincadeira. Depende do que eu estou sentindo na hora e o que acho pertinente compartilhar.

Quando o canal se tornou esse sucesso, como você passou a encarar a responsabilidade de ser um formador de opinião?
Eu sei que a maior parte da galera que assiste, de uns 15 ou 16 anos, leva muito a sério o que eu falo. Eu sinto o peso de ter começado a fazer o negócio na brincadeira e hoje carregar a responsabilidade de falar coisas que vão influenciar de verdade essa molecada. Mas eu tento não pensar muito nisso. Eu me divirto fazendo os vídeos e meu foco é esse, mantê-los divertidos. Então, se a galera curtiu e se divertiu, missão cumprida. Quanto à mensagem e o impacto que ela vai ter, eu acho que pensar nisso pode acabar censurando de alguma forma meu projeto. Claro que existe, sim, uma liberdade total na internet, mas existem também os limites do bom senso. Você pode falar sobre o que quiser, mas isso pode cavar a sua própria cova.

Como você vê a cobertura da mídia em assuntos polêmicos, como o “rolezinho” ou o julgamento do mensalão, que já foram temas dos seus vídeos? E qual a diferença com relação ao que você faz?
Eu acho que a imprensa, diferente da gente que faz vídeo para internet, tem um compromisso de ser mais sensata, ser mais “meio-termo”. É óbvio que existem veículos que são mais de direita ou de esquerda, mas o lance é que é tudo mais censurado, é menos “cru” do que o que a gente faz. O que a gente faz é transmitir o papo do que tá rolando com os jovens, a gente fala sem muita barreira. Nós sabemos que existem camadas e hierarquias dentro de um jornal e de uma televisão que não permitem que seja tão livre. Existe toda uma censura e um cuidado com o tipo de repercussão que a mensagem pode ter que não existe na internet.

E qual é a importância de trabalhos como o seu, ou seja, de comentar notícias de forma livre e ter essa comunicação direta com as novas gerações?
É importante porque propõe que os jovens tenham um pouco de senso crítico. Eu acabo questionando algumas coisas que a molecada, talvez influenciada pela televisão, nunca tenha pensado em questionar. Eu os convido a discordar, a questionar, o que eu acho essencial. No meu trabalho, o interlocutor é um amigo deles, não existe uma distância como há com um âncora de TV ou um apresentador de domingo. Nós somos os caras que estão lá no meio, nós somos um deles, só que com voz. O importante é mostrar pra eles que é possível questionar e incentivar esse tipo de pensamento.

Assista ao vídeo:


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

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