"Folha" demite o jornalista André Caramante; motivo seria redução de custos

Jéssica Oliveira | 11/02/2014 17:40

O repórter André Caramante foi demitido do jornal Folha de S.Paulo, na última segunda-feira (10/02). O profissional voltava de férias, mas não encontrou seu nome na escala de trabalho da semana. Ao chegar à redação foi comunicado de sua demissão, sob a alegação de "contenção de despesas". As informações são do jornalista Milton Bellintani, ex-professor de Caramante e amigo do profissional.


Especializado na cobertura da segurança pública, Caramante atuou por 14 anos e meio no Grupo Folha, sendo os últimos oito na Folha de S.Paulo. Segundo post de Bellintani no Facebook, por sete anos e três meses ele foi "escoltado" por motoristas do jornal (que o buscavam em casa para trabalhar e o levavam de volta após o expediente) para protegê-lo, já que o jornalista denunciou abusos envolvendo policiais, como grupos de extermínio, e passou a ser ameaçado.

Crédito:Reprodução
Folha de S.Paulo demite o jornalista André Caramante


Saída do país e retorno ao jornal
Caramante recebeu diversas ameaças em sua carreira, algumas mais graves. Uma delas gerada por matéria publicada em 14 de julho de 2012, de título “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, sobre o coronel reformado da Polícia Militar Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, então candidato a vereador pelo PSDB.

O texto falava de sua saída da Rota para ser político, e de comentários sobre supostos confrontos com civis a quem ele chamava de vagabundos. Após a nota, Telhada escreveu no Facebook que Caramante era "notório defensor de bandidos" e seus seguidores passaram a ameaçar o repórter.

Redes sociais, blogs e o site da Folha ficaram cheios de comentários contra o jornalista. As mensagens, que iam de “péssimo repórter” a “bala nele”, viraram ameaças à sua família. A Folha pediu a investigação do caso e, em conjunto com o profissional, optou por afastá-lo do país por motivo de segurança. Em 11 de setembro de 2012, ele e sua família saíram do Brasil e permaneceram fora por 90 dias. Durante o período, o jornalista continuou trabalhando na área de segurança pública para o jornal. 

No dia 23 de outubro de 2012, o jornalista José Roberto de Toledo, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), relatou a situação na abertura do 34º Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos. "Falta alguém entre nós", disse sobre Caramante.

Ainda segundo Bellintani, amigo do jornalista, na volta ao Brasil Caramante pediu uma reunião com a direção para avaliar a situação e, também em comum acordo com o jornal, foi afastado da cobertura da segurança pública. Deslocado para a Agência Folha, onde permaneceu até agosto de 2013, continuou encaminhando pautas sobre o tema ao caderno "Cotidiano" e à TV Folha. 

No entanto, insatisfeito fora de sua área, pediu para voltar à cobertura da segurança pública, mas o jornal recusou e ele foi deslocado para a editoria de "Esportes". 

Premiações
No final de 2012, a Assembleia Legislativa de São Paulo deu a Caramante o prêmio Santo Dias da Silva. Em 2013, ele recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, concedido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Caramante decidiu ser repórter aos 17 anos, quando entrou para a faculdade de jornalismo, mas a vontade de seguir a profissão nasceu três anos antes, numa sexta-feira ao assistir o "Globo Repórter". No programa, Caco Barcellos entrevistava os engenheiros da Petrobras que foram feitos reféns das Farc na Colômbia. Ao ver a reportagem, ele ainda sonhava em jogar bola, mas decidiu que se o futebol não desse certo, iria contar histórias como Barcellos.

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