Com 50 anos de profissão, Roberto Carmona se prepara para a 11ª Copa da carreira

Por Lucas Carvalho* | 07/06/2014 12:00

Como repórter de campo e comentarista no programa “Papo de Craque”, da Rádio Transamérica, Roberto Carmona completa este ano meio século de carreira. Carrega na memória inúmeras histórias da profissão, todas ricas em detalhes, pelo ponto de vista de quem testemunhou as mudanças no jornalismo esportivo brasileiro dos últimos 50 anos.

Com dez Copas do Mundo no currículo, Carmona se prepara para cobrir a primeira em solo brasileiro. “A primeira experiência foi a de 1974, na Alemanha. Nela eu trabalhei pouco, por que eu era da Rádio Nacional, que hoje é a Globo, e eu também fazia Fórmula 1. Na época eu fui pra fazer um corrida e fiquei pra cobrir a seleção. Só que antes do fim da Copa eu saí pra fazer outra corrida. A grande experiência mesmo foi em 1978, na Argentina”, conta o jornalista.

Ele lembra uma história curiosa que marcou a ocasião. O jornalista se preparava para cobrir a disputa pelo terceiro lugar, entre Brasil e Itália, no dia 24 de junho de 1978. Carmona, que domina o idioma espanhol, foi convidado por um bombeiro brasileiro para ajudá-lo a se comunicar com os seguranças locais dentro do gramado. Com sorte, ele acabou conseguindo permissão para ficar em campo durante o jogo.

“Foi uma coincidência, uma coisa do destino, que só acontece quando a gente menos espera. Eu estava com o microfone dentro do casaco e comuniquei ao técnico da rádio: ‘Já avisa o Osmar [Santos] que eu estou dentro do gramado e não pretendo sair daqui’.”

“Eu fiz o jogo de dentro do gramado, entrevistei os jogadores no final, quando eles se abraçaram... Falei com o técnico do Brasil, Cláudio Coutinho... E o Osmar cresceu na cabine! Ele falava: ‘Rádio Globo, a única emissora com repórter no gramado!’. Evidentemente que os companheiros que estavam lá em cima, na cabine, imediatamente me deduraram”, lembra o jornalista.

Um segurança o tirou de campo, mas Carmona já havia coletado material mais do que suficiente. No dia seguinte, na final do torneio entre Argentina e Holanda, o repórter conseguiu novamente entrar em campo, dessa vez com uma credencial de fotógrafo.

“Eu entrevistei o então presidente da Fifa, João Havelange, transmiti a entrega da Taça e tal. No momento em que eu ia me consagrar mesmo, que eu ia falar com o presidente da Argentina, o Jorge Rafael Videla, um segurança me pegou pelo colarinho e me tirou. Mas aí eu já tinha conseguido tudo. Essa foi a maior experiência que eu tive numa Copa do Mundo”, conta.

Crédito:Divulgação
Roberto Carmona fala sobre Copa do Mundo


Quatro anos depois
Na Copa de 1982, na Espanha, Carmona voltaria a registrar um novo capítulo importante em sua carreira profissional. O jornalista recorda a entrevista exclusiva que conseguiu com o então técnico da Argentina, César Luís Menotti, que ganhou destaque no mundo inteiro.

“Colocamos a matéria no ‘Globo Esportivo’, programa da rádio, e foi um p... de um sucesso. Cheguei no hotel à noite e eu tinha uns 200 recados. Tinha gente da Bahia, de Pernambuco, não sei mais de onde, todos querendo a matéria. Eu falava ‘liga lá na Central da Globo que eles te passam’. Mas você imagina? O Menotti falava na entrevista que a campeã seria a Itália, que o Brasil não ganharia, a Argentina não tinha condição... Ele contou tudo antes da Copa, pô! Esse foi um momento marcante também”, recorda.

Dentro e fora de campo
Carmona já tomou café com Pelé e sua esposa, numa entrevista sobre racismo no futebol gravada na própria casa do ex-jogador. O repórter lamenta o fato de que, hoje em dia, os profissionais de imprensa não têm mais o contato pessoal que tinham com os clubes e os atletas anos atrás. Contato que, segundo ele, tornava o trabalho muito mais agradável.

“Hoje está muito mais difícil trabalhar, com a criação dessas assessorias de imprensa. Às vezes eu tenho que falar com meus amigos da área: ‘Você é assessor de imprensa ou secretário do presidente?’. O cara , em vez de assessorar a imprensa, ele dificulta o nosso trabalho.”

“Você não tem tempo de sentar com os jogadores, bater um papo, conversar. Não como a gente fazia no tempo antigo, no tempo dos grandes jogadores - Pelé, Garrincha, todo mundo. Os caras chegavam no campo e você cumprimentava, encontrava com eles fora dali, ia tomar café. Hoje você quer falar com um jogador, ele diz ‘tem que falar com meu assessor’. Você liga pro assessor, ele acha que você está querendo tirar vantagem dos outros, dificulta... Antigamente era diferente, e era muito mais gostoso”, desabafa o jornalista.

Expectativas
Apesar de ter acompanhado dez Copas do Mundo na carreira, Mundiais acontecem apenas uma vez a cada quatro anos. No meio tempo, Carmona cobriu inúmeros campeonatos de expressão nacional, e revela que não vê diferença entre atuar no Brasil ou fora do país.

“O trabalho é igual. A dificuldade ou a facilidade quem cria é você mesmo. [...] Eu, pelo menos, nunca diferenciei uma coisa da outra. Fiz sempre com o mesmo carinho, o mesmo entusiasmo, a mesma dedicação. É evidente que fazer uma Copa do Mundo dá outro status pra você, acrescenta mais no teu currículo. E eu fiz dez Copas, pô”, ressalta.

Para o torneio no Brasil, Carmona apenas deseja sorte à seleção canarinho e torce para que tudo ocorra bem, dentro e fora de campo. “Quando você viaja pra fazer uma Copa fora, você fica uns 50 dias fora de casa. Aqui não, a gente não vai ter aquela correria, ter que ficar longe da família. Vamos torcer para que corra tudo direitinho, que a imprensa não tenha dificuldade de comunicação, que corra tudo bem... e que o Brasil seja campeão, vai”, finaliza.

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*Com supervisão de Thaís Naldoni