“É uma ferramenta da cidadania”, diz cientista político sobre o projeto "Manchetômetro"

Christh Lopes* | 06/08/2014 17:30
A cobertura da campanha eleitoral pela imprensa brasileira apresenta ao longo de sua história questionamentos sobre o uso dos veículos para apoiar determinado projeto político. A discussão ganha reforço com a ferramenta Manchetômetro, lançada pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Por meio dela, é possível verificar quantas reportagens são veiculadas positivamente e negativamente sobre os candidatos aos cargos públicos em 2014, com foco nas campanhas ao Palácio do Planalto.

Crédito:Reprodução
Ferramenta mostra como imprensa trata campanhas eleitorais no Brasil

O estudo utiliza como método a análise de valência, isto é, verificação se a reportagem mostrada, principalmente na capa dos grandes jornais, representa uma imagem positiva ou negativa sobre o político mencionado. Com isso, a ferramenta não faz juízo de valor sobre a veracidade da informação, apenas registra a quantidade de matérias e seus respectivos ganhos e perdas para o candidato retratado.

À IMPRENSA, o docente e cientista político João Feres Júnior afirma que o Manchetômetro é uma ferramenta da cidadania, “pois torna o leitor um eleitor mais consciente acerca do que lhe é oferecido como informação”.

Recursos disponíveis na ferramenta

Além dos gráficos a respeito das manchetes dos tradicionais jornais, há diversas análises a partir da ferramenta que podem ser estudadas pelo público. Na seção “candidatos”, é possível verificar a relação de matérias sobre os três postulantes à Presidência com melhor desempenho nas pesquisas eleitorais.

Por exemplo, a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, lidera os números negativos das manchetes com ampla vantagem. Os demais candidatos, Aécio Neves e Eduardo Campos, têm reportagens equivalentes nas duas variáveis. 

O tópico analisa diversos momentos da campanha eleitoral. Na primeira representação, o site disponibiliza a cobertura agregada, com a mostra das manchetes e chamadas de capa favoráveis e contrárias para cada candidato. Em seguida, apresentam-se as informações relativas à cobertura antes do período eleitoral e depois de seu início. Por fim, há um gráfico com a série temporal registrada pela ferramenta, desde o início deste ano.

O padrão de categorias de estudo segue nas demais análises, que mostram o comportamento da mídia a respeito dos partidos, manchetes, jornais, Governo Federal x Estado de São Paulo, Lula x Fernando Henrique Cardoso, Dilma x Alckmin. Além do levantamento no campo eleitoral, há também cases.

Em Enquadramento Política, o internauta poderá visualizar a chamada crise política que o País viveu durante e após as jornadas de junho. O levantamento apresenta dados sobre a cobertura da imprensa durante todo o ano de 2013, que teria consistido em apresentar as instituições políticas negativamente, sejam elas sobre poder Executivo, Legislativo, Judiciário, além de agências, empresas e políticas públicas. O estudo revela que houve 584 matérias negativas diante de apenas oito positivas, se considerada a cobertura agregada. 

O Manchetômetro também faz uma análise sobre a cobertura dos meios de comunicação sobre reportagens referentes à economia brasileira. Neste caso, a ferramenta buscou verificar se a imprensa privilegiou as questões negativas sobre o setor, numa eventual crise que poderíamos enfrentar em um futuro próximo. Durante o ano de 2013, houve 414 matérias negativas diante de apenas dez positivas. 

“[O pessimismo] não é basicamente formado pela mídia, mas ela contribui bastante para isso. Se formos parar para analisar, o Brasil não está em uma crise econômica até agora. O desemprego está lá embaixo, crescemos em nível internacional. Pelas notícias, parece que estamos mergulhados na crise econômica faz tempo. Mesma coisa sobre as instituições públicas brasileiras. Elas funcionam muito bem desde a redemocratização. Eu acho que existe um viés tremendo sobre essas duas coisas. E só podemos descobrir isso comparando”, diz Feres Júnior.

O site também terá uma
seção de artigos, com textos curtos com análises do cenário eleitoral.

Principal telejornal brasileiro na mira

Nos próximos dias, o Manchetômetro deve lançar uma seção para analisar profundamente a cobertura eleitoral do principal telejornal brasileiro — “Jornal Nacional”. A novidade foi revelada por João Feres Júnior. “O estudo será feito da mesma maneira como tratamos a questão dos jornais; com gráficos e estudando valência. Só que, além dela, vamos estimar também o tempo de exposição de cada matéria”, diz. Com os dados, o internauta poderá comparar os perfis de cobertura televisiva com a do jornal impresso.

Exemplos e referências para a iniciativa

A ferramenta foi desenvolvida a partir de um longo processo desenvolvido pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). “Nós temos uma tradição de fazer estudos sobre mídia e eleições”, diz o cientista político.

Crédito:Reprodução/Facebook
João Feres Júnior é coordenador do manchetômetro

Além dos levantamentos feitos pela entidade, o case sobre a mídia impressa nas eleições de 2010 foi fundamental para a criação do Manchetômetro. A ideia foi desenvolvida no Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP), setor coordenado por João Feres Júnior. O conceito de desenvolver um site para o acompanhamento das eleições não mudou muito a rotina do grupo, que trabalha nesse sentido para a elaboração de pesquisas acadêmicas.

“O comportamento da mídia é avaliado a partir das chamadas que constam na capa. Então, por exemplo, sobre o Aeroporto de Cláudio (MG) na gestão Aécio Neves. Uma matéria deste tipo é uma matéria negativa para a campanha do senador, porque implica colocar em questão sua lisura como governador”, afirma.

A repercussão do projeto surpreendeu Feres Júnior. A iniciativa completa uma semana no ar e próximo de atingir 100 mil acessos. “Como dizem hoje em dia, estamos bombando! No Facebook e no site. Nós temos página no Facebook e no Twitter. Todo mundo que tem uma razoável boa fé, desconfia de que existe um viés na cobertura que temos na grande mídia no Brasil. Isso é histórico”, ressalta.

Os bons resultados na rede atraem a visão do público, como também de campanhas eleitorais. Entretanto, o docente rechaçou logo quaisquer vínculos político-partidários e defende a manutenção do Manchetômetro independente. 

Entre os casos marcantes na cobertura eleitoral pela imprensa brasileira, Júnior destaca a eleição de Brizola no Rio de Janeiro, a edição dos debates entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor em 1989, além das eleições de 2010, onde “nós mostramos que houve um viés tremendo neste caso contra a esquerda ou contra o PT”. “Engraçado que as pessoas sentem isso, mesmo de espectros políticos diferentes de fato enxergam tal viés. Elas não têm ideia da dimensão, de como e aonde isso ocorre. Então, o Manchetômetro deixa essas coisas bem claras”.

Manchetômetro revela tendências em 2014

De acordo com o cientista político, na campanha para a disputa do Palácio do Planalto “há um viés tremendo contra a candidatura da Dilma Rousseff, uma proliferação de notícias contrárias muito maior do que aos candidatos da oposição”. Neste caso, a ferramenta poderá mostrar que existem semelhanças entre a eleição deste ano com a de 1998. Ele diz que a maneira de identificar se há algum “favorecimento” seria justamente comparando tais dados. 

“Em breve, vamos disponibilizar uma análise sobre essa eleição, na qual você tem o então presidente Fernando Henrique Cardoso buscando o segundo mandato. O partido dele estava no governo e hoje faz oposição à gestão atual. São os mesmos partidos, só que a situação inverte. Poderemos ver como a mídia se comportou ali. Se a questão é que a mídia se opõe a quem está no governo, então deveriam ter se isso de maneira similar neste caso, não? Como fazem agora. Caso não se comportem desta maneira, provavelmente há um viés político muito forte”, destaca.

Na avaliação do cientista político, a ferramenta ressalta pontos antes invisíveis aos nossos olhos e inova ao atrair o leitor ao conteúdo político. Os indicadores serão atualizados todos os dias, por meio da tecnologia criada no site especialmente para as diretrizes do projeto.

Ao concluir, o docente e coordenador da iniciativa não tem uma visão muito positiva referente à conduta da mídia na campanha eleitoral. No entendimento do magistrado, “a tendência será, infelizmente, uma cobertura midiática baseada em escândalos, em vez da discussão de propostas”. 

“A Veja geralmente faz ataques à reputação das pessoas de maneira leviana e o resto da mídia trata como se fosse fato. Isso ocorreu muito na eleição de 2010 e já começou nessa eleição, com a cobertura sobre a CPI da Petrobrás e o escândalo do Aeroporto de Cláudio (MG) do Aécio. Eu gostaria de concluir diferente, mas não há nenhum elemento que indique mudança”, finaliza. 

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves