Demissão em massa na RBS preocupa professores de jornalismo no RS

Rodrigo Álvares | 08/08/2014 17:00
O anúncio da demissão de 130 funcionários do Grupo RBS pegou o mercado de surpresa nesta semana. A empresa, costumeiramente lembrada como exemplo de gestão, tem sido criticada pela falta de tato com seus “colaboradores” – como o presidente Eduardo Meltzer escreveu em nota oficial.

O clima de incerteza que paira sobre os jornalistas e o mercado de trabalho, especialmente no Rio Grande do Sul, gerou condenações de professores de faculdades de jornalismo no Estado, que associam esse comportamento da RBS ao monopólio que o grupo exerce no Sul do País. 

Para o professor da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS (Famecos) e presidente da Fenaj, Celso Schröder, a RBS detém uma enorme concentração do mercado e essas demissões produzem uma crise sem precedentes. “São pessoas que estão trabalhando, não são iniciantes na profissão. São pessoas que estão trabalhando há um bom tempo e isso cria um problemaço. E eu insisto nisso: é um problema de jornalismo”, diz.

Crédito:Divulgação
Schröder: "Na Zero Hora não há problema de receita"

Na nota divulgada na última segunda-feira, Melzer destacou que o objetivo dos cortes é buscar produtividade e maior eficiência. "São cortes que precisam acontecer, principalmente na operação dos jornais. Não estou de forma alguma insensível ao impacto que demissões geram na vida das pessoas e da própria empresa, porém acredito que tanto os profissionais quanto as empresas precisam repensar o modo como atuam".

O diretor explicou que a empresa não promover a demissão dos funcionários num universo de 6 mil empregados seria uma irresponsabilidade com os profissionais e um descaso com seus clientes. "É importante destacar que a RBS não passa por uma crise financeira. Ao contrário. Estamos investindo e redesenhando a nossa operação, buscando velocidade e desprendimento que são vitais para a preservação do nosso projeto empresarial", completou.

Para a professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) Márcia Benetti, o modo como o presidente da RBS anunciou as demissões foi quase “suicida”. “Revelou que a empresa é cruel e só se importa com o faturamento. Ele disse, sem nenhum pudor, que jornal é igual a vinho, porque é exatamente isso que ele pensa. Tudo isso circula nas redes sociais e repercute muito mal”, avaliou.

De acordo com Schröder, o fato de ser um monopólio virtual permite ao Grupo RBS fazer algumas experiências de gestão nos modelos que jovens administradores buscam em certos locais. “Esses modelos, de novo, não têm nada. Na Zero Hora não há problema de receita. A verdade é que os financiamentos em rádio e TV no Brasil estão chegando aos níveis praticados no exterior. Infelizmente, acabou aquele tempo em que jornais e TVs tinham 70 % de audiência.”

A situação do mercado de trabalho no Rio Grande do Sul também preocupa, já que a RBS é a principal empregadora da área de jornalismo no Estado. “Para os jornalistas, o problema é o que estas demissões podem sinalizar para outras empresas. Existe o rumor de que a RBS fará muitas demissões depois das eleições, então o horizonte é péssimo. Claro que as vagas não estão apenas nos grandes veículos, mas eles afetam o mercado de modo geral”, disse Márcia.

Outro ponto de desânimo é na formação dos novos profissionais nas faculdades. “Há algum tempo, os estudantes começam a perceber que infelizmente os espaços formais nas grandes redações estão cada vez menores. Os estudantes compreendem isso e estão produzindo alternativas”, diz Schröder. 

Segundo Márcia, o “clima geral dos alunos é de desencanto com o jornalismo mainstream”. “Eles percebem que a profissão é desvalorizada pelos donos dos grandes veículos. A saída é trabalhar alternativas profissionais e seguir defendendo um jornalismo de qualidade, mas é muito frustrante para o professor também”, completou.

Leia também