Repórteres jurídicos criam site especializado para suprir carência editorial

Rodrigo Álvares | 15/08/2014 14:45
O advento das novas mídias colaborou para o crescimento do jornalismo jurídico no Brasil ao permitir transparência do Poder Judiciário e difusão das informações jurídicas. Mas, paradoxalmente, esses dados raramente são filtrados corretamente ou têm mais espaço na mídia. Por causa disso, um grupo de jornalistas ligados à cobertura dos tribunais decidiu criar o site de jornalismo jurídico Jota – com lançamento previsto para a segunda quinzena de setembro.

Crédito:Reprodução
Lançamento do site está prevista para a segunda quinzena de setembro

“Há muito tempo a gente vinha conversando sobre a necessidade dos advogados, ministros dos tribunais superiores, procuradores, promotores, professores e alunos de Direito têm de informar sobre o noticiário de Justiça e Direito. Muitas destas pessoas viram que há um espaço para tratar deste assunto”, explica Felipe Recondo, ex-repórter do Estadão e um dos sócios do site.  

Além dele, a equipe é composta por Rodrigo Haidar (ex-ConJur), Felipe Seligman (ex-Folha de S.Paulo), Laura Diniz (ex-Veja), Barbara Pombo (ex-Valor) e Rafael Baliardo (ex-ConJur). Recentemente, o Jota teve o acréscimo de Luís Orlando Carneiro, que deixou o Jornal do Brasil.

Lacuna 

Depois de cobrir por muitos anos a área jurídica, tanto em Brasília como em São Paulo, a convivência levou a “uma certa frustração relativa a não poder aprofundar certos temas que muitas vezes não têm o interesse do leitor geral”, diz Seligman.

De acordo com Haidar, “há mais espaço para a Justiça nos jornais, mas são poucos os cadernos específicos sobre Justiça e Direito. Nada sobre o mercado da advocacia. Na maioria das vezes, os setoristas de Judiciário fixam a cobertura apenas no Supremo. Mas há muito mais a explorar no mundo jurídico. É isso que o Jota pretende fazer”.

Apesar de o Judiciário ter aumentado sua importância na imprensa nos últimos anos, isso não refletiu nas redações. “Eu estava no Estadão e nós tínhamos dois ou três repórteres para cobrir o Judiciário no País inteiro. A gente percebia que precisava de mais. Então, ganhando esse espaço, essa dimensão, talvez haja realmente um espaço onde a gente atue”, conta Recondo.

Seligman conta que “havia um grupo que achava chato o que escrevíamos e outro que achava ruim o que a gente escrevia. E, normalmente, o advogado que precisa muito de informação, reclama muito da falta de notícia, como os assuntos são tratados. Percebemos que existe muito espaço para avançar no Brasil em relação a esse tema. Existem alguns veículos qualificados, mas existe espaço também”. 

O Jota conta com a parceria da FGV – Rio e com alguns apoiadores – cujos nomes o grupo preferiu não divulgar. “Para Seligman, “há necessidade de trazer a academia para o debate. Na área de Direito, a academia é muito viva na parte profissional. Um advogado, quando atua, cita estudos, pesquisas de mestrado, cita até teses de doutorado. É uma área que talvez converse como nenhuma outra área”.

Jornalismo de nicho

Em meio às permanentes crises nas redações, o grupo aposta que o público-alvo deve encampar a proposta. “O nosso foco é o público especializado e a assinatura corporativa. Como essas pessoas precisam de informação mais aprofundadas do assunto, a gente crê que elas podem pagar por isso”, diz Recondo.

Em termos de tamanho do mercado, os jornalistas estimam em torno de mais de 800 mil advogados com a OAB, 600 mil estudantes, 15 mil juízes, professores, delegados de polícia, entre outros, como clientes em potencial. 

Além das assinaturas corporativas, Seligman explica o site também terá espaço para publicidade e “muita coisa que vamos experimentar, porque faz parte desse movimento de busca de um novo modelo de jornalismo. Talvez nesse momento passe pelo nicho”. 

“É difícil competir com um veículo de comunicação que cubra tudo. Eu não posso fazer isso porque não vou ter a estrutura de nenhum grande jornal, mas eu posso me focar numa área específica e tentar me tornar útil para um público específico. Porque, no final das contas, jornalismo é isso: um serviço de utilidade pública. Você não precisa mais atirar para acertar todo mundo”, conclui. 


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