Site promove cultura africana contrariando a pecha do “coitadismo”

Por Danúbia Paraizo | 15/12/2014 14:15

Se a primeira coisa que vier à sua cabeça quando pensar nos países da África for pobreza, guerra civil, tambores e leões correndo livres pela selva, provavelmente você não é o único. E foi justamente para fugir desse lugar comum que a jornalista Flora Pereira e o designer Natan de Aquino resolveram fazer uma imersão na cultura local  e mostrar um lado que passa desapercebido na imprensa ou é romantizado na literatura.

O resultado dessa imersão pode ser acompanhado no Projeto Afreaka, site de jornalismo independente dedicado à promoção de iniciativas culturais que contradizem os estereótipos de uma África passiva e sem expressividade. Para isso, os autores fizeram duas grandes viagens ao continente – uma em 2012 e outra em 2013 - visitando 16 países. 

“Comecei a ver como essa versão estereotipada causava danos sociais, no sentido que você cria um preconceito e um sentimento de superioridade. Passa a ter pena dos que passam fome na África, mas não reconhece a cultura ativa, protagonista que existe lá”, defende Flora, que financiou a expedição por meio de crowdfunding.
Crédito:Divulgação
Natan de Aquino e Flora Pereira em campo

O Afreaka traz mais de 100 reportagens e imagens inéditas, além de vídeos e uma seção de turismo em que os autores fazem um contraponto entre as sugestões dos guias de viagens e das dicas dos próprios autores, para os que desejam ter uma experiência mais genuina nos lugares visitados. 

“Os guias são voltados para o turismo bolha, que você não se envolve diretamente com a cultura. Lembro que em Burkina faso foi onde eu mais apreciei a culinária, mas ela é baseada em comida de rua. E os guias só falam de restaurantes turísticos, de comida continental, ou seja, que você encontra em qualquer lugar. Procuramos dar dicas de como se envolver. Não ser apenas um turista que olha de cima, mas que participa”.

Outro clichê recorrente são as indicações de safáris, mais comuns na região Sul do continente, onde há mais parques e reservas naturais. A jornalista explica que os guias às vezes pecam por recomendar passeios tão parecidos e se esquecem de mostrar um pouco da cultura. Ela se recorda de sua passagem pelo Zimbábue, onde visitou uma “plantação” de esculturas em uma fazenda. Eram milhares de estátuas colocadas em cima de tocos de madeira. 

Para  jornalista, o problema de fazer os chamados passeios “bolha” em visita ao continente é o risco de reforçar mais os estereótipos e ainda por cima propagá-los. Como exemplo, ela se recorda de um casal de brasileiros que conheceu antes de viajar. Eles mostraram uma foto de prédios abandonados em Maputo para ilustrar como o país era pobre e feio. “Na hora a gente se questionou se era tudo aquilo mesmo. Nada do que mostraram a gente já não tinha visto no centro de São Paulo”. 

A grande surpresa de Flora quando chegou em Maputo, foi visitar exatamente o mesmo lugar da foto, e perceber que ao lado do prédio abandonado havia uma igreja da década de 1920, com referências ao modernismo, uma biblioteca de quatro andares e uma praça arborizada. 

“Foi marcante, porque sem querer as pessoas vão à Africa para confirmar o que elas já sabem, ou acham que sabem. De todos aqueles ângulos, o casal resolveu uma tirar foto da pobreza e confirmar um estereótipo. Acontece muito isso, seja com turistas ou com jornalistas”. 

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