“Quem ficar parado morre no mercado competitivo de hoje”, diz Palomino sobre ESPN

Vanessa Gonçalves | 18/12/2014 16:45
A saída de Paulo Vinícius Coelho da ESPN Brasil fez surgir na imprensa uma série de análises sobre o futuro da emissora no país. Afinal, em pouco tempo o canal também acumulou a perda de dois importantes campeonatos exibidos tradicionalmente em sua grade: a Bundesliga (campeonato alemão) e Liga dos Campeões.

Crédito:Divulgação
João Palomino comenta mudanças na ESPN e novidades para 2015

Embora PVC tenha deixado claro em sua despedida do canal que a decisão de sair tinha sido exclusivamente por uma escolha profissional, os analistas de TV enxergaram uma possível crise interna na emissora, apontando o vice-presidente de jornalismo e produção, João Palomino, como o responsável pelas "derrotas" recentes.

À IMPRENSA, Palomino revelou os bastidores da saída do comentarista e das negociações dos direitos de transmissão citados anteriormente, conta como a ESPN tem buscado sobressair diante da concorrência sem perder a qualidade e o DNA de quem entende de esportes e anuncia alguns planos para 2015.

Perdas recentes

O vice-presidente de jornalismo e produção da ESPN Brasil deixa claro, logo de cara, que as recentes perdas não faziam parte dos planos da emissora. “Seria cretino da minha parte dizer que está tudo normal, tudo tranquilo, tudo sossegado. Evidente que não está”, diz. No entanto, explica ponto a ponto como ocorreram estas mudanças, mostrando que questões de mercado foram cruciais.

“A Bundesliga é uma questão de mercado, de muito dinheiro e de uma compra mundial. Qualquer dinheiro que tivéssemos no Brasil não iria adiantar nada porque a compra foi feita externamente [pela Fox Sports]”, conta Palomino. 

Sobre o canal Esporte Interativo vencer da disputa pelos direitos das próximas três temporadas da Liga dos Campeões [Champions League], o jornalista revela que houve uma disputa milionária e bastante acirrada, apesar dos esforços conjuntos de ESPN e SporTV. “A questão da Champions League também é coisa de mercado, de muito dinheiro. Para ter uma ideia de que era muito dinheiro, íamos adquirir junto com a SporTV. Não faltaram esforços para manter a Champions League [na ESPN]. Foi um trabalho de três anos e meio e que culminou em levar para um terceiro round a disputa dos direitos. Foi algo muito acirrado, ficamos muito próximos [de adquirir os direitos deste campeonato]”.

Palomino diz que o mercado ainda não sabe se a aquisição do campeonato renderá à empresa que negocia os direitos de transmissão o resultado almejado, até porque o Esporte Interativo não faz parte da grade das principais operadoras do país — NET e SKY. “Temos uma tradição de transmissão da Champions, temos uma proximidade com a Team, que negocia os direitos. Então, a maior oferta, que para mim não foi a melhor, levou a Champions, mas o mercado não sabe exatamente o que vai ser”, comenta.

Saída de Paulo Vinícius Coelho

Os fãs de esportes usaram as redes sociais para “culpar” João Palomino pela saída de PVC do canal. No entanto, o executivo rebate as críticas reafirmando aquilo que o próprio comentarista informou na mensagem de despedida no Facebook: a decisão foi do próprio jornalista.

“A questão do PVC é muito de escolha pessoal. “Quando ele me disse: ‘eu conversei com a Fox, fechei com eles e vou [embora]’. Falei: ‘peraí, take easy. Deixa eu chegar na redação e vá com o Arnaldo Ribeiro para minha sala e vamos conversar’. Acontece que o PVC definiu a vida dele. Ele acertou a vida dele com a Fox, ele decidiu ir para Fox, pois ele tem um desejo muito grande, que é uma coisa dele, de participar ativamente de uma cobertura de Libertadores da América que ele nunca fez”, conta.

Palomino ressalta que a ESPN usou todos os expedientes possíveis para não perder um profissional que é “a cara” da emissora. “Ele teve um sem número de manifestações internas, de pessoas próximas a ele, da minha parte, do presidente, do vice-presidente comercial, do Arnaldo, do Gian, do Tirone, de todo mundo, tentando demovê-lo. Então, quando ele saiu, entendi como uma decisão pessoal. Ele deixou isso muito claro para mim”.

A saída do comentarista foi uma surpresa para a direção do canal, especialmente pela participação destacada de PVC nas principais transmissões de 2014. “Se a gente analisar o ano do PVC, ele participou de toda a campanha da Champions e foi para semifinal e final na Europa, ele cobriu o Brasil na Copa do mundo cobrindo o Brasil e fez a final, fez toda a final da Copa do Brasil, participou de alguns projetos comigo recentemente, então nada indicava que ele iria por esse caminho”.

IMPRENSA apurou que um suposto aumento salarial em torno de 50% não teria sido o motivo para a mudança de endereço de PVC, mas que a oportunidade de cobrir a Copa Libertadores, viajar, produzir matérias e ter um programa próprio pesaram na decisão do jornalista.  

Além disso, a saída de PVC teria se dado principalmente por não "querer trabalhar numa emissora onde a maioria dos jornalistas estão insatisfeitos com os destinos da empresa”. O executivo afirma ele “trouxe reclamações pessoais que são comuns até na casa da gente, até numa mesa de bar. Ele trouxe questões corriqueiras de qualquer redação da face da terra, não um ponto central que nos deixasse preocupados”. 

De toda a forma, Palomino revela que “o que eu poderia fazer [para ele ficar] eu fiz. Nós fomos como profissionais e como pessoas próximas até o limite onde poderíamos ir”. Como PVC estava decidido, restou a ele desejar boa sorte ao profissional, deixando as portas abertas da ESPN para ele. IMPRENSA procurou PVC para comentar o assunto, mas ele não retornou as chamadas telefônicas. 

Crise interna

Sobre a suposta crise interna na emissora, alardeada pela mídia e atribuída à série de mudanças na grade de programação e no quadro de funcionários, o executivo revela que a ESPN mudou e que essas alterações eram necessárias para o crescimento do canal.

“A ESPN não é diferente de lugar nenhum. Estamos fazendo as mudanças que entendemos necessárias. Não vou nunca me eximir de responsabilidade, mas a decisão é fruto de muita conversa, estudo, de participação das pessoas, opinião das pessoas e de certezas do que nós vamos fazer. Se vai dar certo ou não, a responsabilidade é minha. Se der certo, ótimo. A equipe ajudou. Se não der certo, a culpa é minha, não tem jeito. Eu fui colocado nessa posição de tomar decisões. Estou tomando as decisões que consideramos necessárias e importantes, porque senão a ESPN, no mercado concorrente que existe hoje, ficaria para trás?”, pontua.

Em razão disso ele comenta boatos que pipocaram em diversos sites, entre eles o “fim” da emissora no Rio de Janeiro, a suposta demissão do repórter Lúcio de Castro e o afastamento dos comentaristas Márcio Guedes e Fernando Calanzans. Segundo Palomino, as mudanças na filial carioca visam reduzir problemas técnicos, que prejudicavam as exibições, muitas vezes questionada pelos próprios funcionários da casa.

“O que pouca gente sabe sobre no episódio sobre o Rio de Janeiro é que a preocupação [com os problemas de delay] foram trazidas pelos próprios jornalistas do “Linha de Passe”. Decidi fazer uma proposta para eles visando solucionar o problema: ‘Fernando vem uma segunda-feira, o Márcio vem na outra segunda-feira’. E eles não quiseram vir para São Paulo a cada 15 dias, sem que mexesse na remuneração deles. A proposta foi feita para melhorar, qualificar o programa, não conseguiríamos mantê-los assim, mas eles que não quiseram vir”, revela.

Como vice-presidente de jornalismo e produção, João sabe que haverá descontentamento sempre que houver mudanças. “Nós trabalhamos com escala e é terrível quando você vê um puta evento e seu nome não está lá. Mas estamos aqui para dar condições para as pessoas trabalhar, para dar segurança, dar suporte, para que as pessoas trabalharem confortavelmente. O fato é que as pessoas precisam estar incomodadas e para isso precisamos propor desafios. E isso está sendo feito”.

Sobre o fim de alguns programas como “Loucos por Futebol”, “Juca Entrevista”, “Duetto”, “Histórias do Esporte”, entre outros e a busca por uma maior audiência, o executivo explica que alguns saíram da grade, pois não conseguiam ter um horário fixo em razão das constantes mudanças por conta de transmissões de partidas. Porém, isso não significa que não possam retornar à grade em outro formato, como ocorre hoje com o “Histórias do Esporte”.

“Acabamos com o programa, mas estamos gastando mais com o “Histórias do Esporte” hoje do que antes, porque agora eles estão no “SportsCenter” e produzindo muito mais. Nós mantivemos a alma da reportagem. Tínhamos duas opções para o “Histórias do Esporte”: esperar o programa semanal que ia colocar quatro matérias no mês ou conseguir quatro matérias por semana nos outros programas? Na nossa visão, o que fizemos foi dar mais espaço ao “Histórias do Esporte”.

Além disso, ele explica que a determinação em incluir mais edições do “Bate Bola” e do “SportsCenter”, todos eles programas ao vivo, ocorreu após constantes pesquisas. A tendência, que se mostrou acertada, já reflete na concorrência e no aumento da audiência, que alcançou no último ano fiscal um crescimento de 126% contando o período de Copa do Mundo e 100% sem o evento. “Fizemos escolhas baseadas em pesquisa, análise de equipe, de capacidade de produção, em resposta [do público]. E, na verdade, o que a SporTV tá propondo hoje? Quinze horas ao vivo por dia”.

Futuro

Palomino destaca que a chegada da Fox Sports mexeu numa situação que, segundo ele, era “acomodada” entre ESPN e SporTV. No entanto, entende que essa nova concorrência é ótima e força todo o mercado a se qualificar, buscar alternativas, ser mais criativo e, consequentemente, investir mais. “Quem ficar parado morre no mercado competitivo de hoje”, decreta. 

“Temos uma definição muito clara do mercado: precisamos oferecer para quem nos acompanha melhores a cada evento, a cada programa, a cada discussão de direitos, na gestão de pessoas, para mantê-las. Estamos sendo atacados em nossos talentos, mas isso é prova de relevância. Somos discutidos e procurados porque somos importantes”, acrescenta.

O jornalista revela que recentemente Gustavo Hoffman recebeu uma proposta da Band, mas a ESPN ofereceu ao comentarista um plano de carreira para que continuasse no canal. Palomino, inclusive, aposta que Hoffman e Leonardo Bertozzi serão os PVC´s de amanhã. “São caras que têm um potencial incrível e vamos usar isso ao máximo”.

Para reforçar o time, a ESPN tentou recentemente a contratação de Mauro Beting, atualmente comentarista da Fox Sports. “Conversamos com ele sim. E disse a ele que essa conversa aconteceria independentemente do canal em que ele estivesse. Não é um tapa-buraco [para a saída do PVC]. Mas ele não aceitou porque tem um compromisso de longa data com a Fox”.

Embora muito tenha sido dito sobre possíveis demissões no canal após a perda dos direitos da Champions League, o executivo rebate, anunciando que ao contrário disso, a ESPN pretende aumentar a equipe. “Precisamos de gente, pois estamos todos os dias ao vivo de três ou quatro clubes, temos 10 horas diárias ao vivo de programas, sem contar as transmissões”, comenta.

“Essa é uma empresa que nunca vi dar um passo para trás”. Com essa frase, ele conclui dizendo que a ESPN já estuda adquirir os direitos de transmissão de novos campeonatos, mas guarda segredo sobre o que está por vir. O que ele garante, com certeza, é que o fã do esporte segue como o foco da emissora.