Senhor Canetada

Ana Ignácio | 06/06/2011 19:42
O jornalista Evandro Carlos de Andrade foi um dos responsáveis pela reformulação do jornalismo das Organizações Globo. Ele foi o responsável por colocar O Globo na liderança do mercado no Rio de Janeiro e, na TV, modernizou o jornalismo, modificou o "Jornal Nacional" e participou da criação da Globo News. Há dez anos saiu de cena, mas deixou um importante legado para a empresa, os colegas e a comunicação. Parte de sua contribuição pode ser conferida na edição de junho de IMPRENSA (Ed. 268, pág. 56).

Além disso, durante suas décadas de profissão, IMPRENSA pode acompanhar diversas etapas de sua carreira. Veja a seguir matérias que já foram publicadas na revista sobre o jornalista. 


Mr. Globo 

Depois de dirigir " O Globo" durante quase 24 anos, Evandro Carlos de Andrade assume o cargo mais bem pago da imprensa brasileira: o de diretor de jornalismo da Rede Globo

Por Luís Edgar de Andrade
(Agosto de 1995)

Quando Evandro Carlos de Andrade foi chefe de redação do Diário Carioca, Luís Edgar de Andrade era o chefe do copidesque . No texto a seguir, ele traça um perfil,sem retoques, do novo comandante do telejornalismo da Globo, que conhece há 35 anos.

Sete dias depois que o jornalista Evandro Carlos de Andrade foi transferido da direção de redação de O Globo para a direção de jornalismo da Rede Globo, os duzentos e tantos funcionários do jornal - diretores, editores, repórteres, diagramadores, secretárias e contínuos se cotizaram para a festa de despedida na boate Hippopotamus, em Ipanema, no Rio de Janeiro.

Logo na entrada, junto ao porteiro, havia um livro grosso de páginas brancas, em que cada um, ao chegar,era convidado a escrever um bilhete ao homenageado.Numa das primeiras folhas do livro, alguém rabiscou "Órfão!" e assinou : João Roberto Marinho.João,um dos três filhos do presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, tinha 19 anos, quando Evandro Carlos de Andrade assumiu o cargo, em 15 de dezembro de 1971 . Hoje, aos 42, vice-presidente da empresa, é o executivo predileto do pai: comanda o jornal. 

O próprio Roberto Marinho e sua mulher,dona Lilly, se divertiram na festa até duas da manhã.Dona Lilly, ex-miss França, conhece Evandro há muito tempo: 40 anos atrás, por coincidência, ele chefiava, na Avenida Rio Branco, o Diário Carioca, matutino que pertencia a seu primeiro marido, o empresário Horácio de Carvalho Júnior, dono da mina de ouro de Morro Velho. 
Foi na inesquecível noite no Hippo que os Marinho tomaram conhecimento de uma das mais ocultas virtuosidades de Evandro : cantor de caraoquê.Alta madrugada, ele mandou a timidez às favas, pegou o microfone e, com voz sensual, entoou um repertóri o que vai de Nature boy a Les Feuilles Mortes, passando por Esse teu olhar.

Os jornalistas de O Globo souberam da saída do diretor por uma carta aos "companheiros da redação", no terminal do computador, que começava assim: "Convocado pelo doutor Roberto e por seus filhos para exercer outra atividade, estou deixando hoje O Globo, depois de ocupar o mesmo cargo por 23 anos e quase oito meses".

De 15 de dezembro de 1971 a 12 de julho de 1995, um quarto de século: ninguém chefiou por tanto tempo um grande jornal brasileiro. Havia, por isso, em sua mensagem, um toque de emoção: "Aqui vivi a maior parte da minha vida profissional, marcada por muitas alegrias e poucas mágoas; estas, naturais, só a custo seriam lembradas; aquelas são inesquecíveis, entre elas a de ter feito amigos, amigos para sempre". E o estilo dele. Evandro Carlos de Andrade tem paixão pela vírgula . Aprendeu com Otto Lara Resende a usar o ponto-e-vírgula.

No fim do primeiro parágrafo, esta lembrança: "Dos que encontrei na luta de cada dia, continuam o Argeu e o Carlos Menezes e pensar neles aumenta a emoção desta minha despedida".

Só dois ficaram o tempo todo. Esse dado mostra a substituição de quadros que houve no período. Muitos, porém, saíram e voltaram. E o caso de Henrique Caban, superintendente da redação, que saiu um ano para Veja, em 1985, e voltou. Caban, pode-se dizer, foi seu braço direito. O braço armado, segundo outros. Se Evandro dizia "Mata!", Caban executava:"Esfola!"

Uma das características de O Globo é o grande turn-over dos editores. Se alguém errou, está demitido. A cobrança se faz todo dia. Evandro Carlos de Andrade tem, por isso, na imprensa, a imagem de um executivo enérgico. Quando dizem enérgico, querem dizer prepotente, implacável, truculento. Ou, segundo os amigos, cumpridor de ordens. Nesse ponto, absorveu o lado autoritário do Roberto Marinho, do qual se conta que, um dia, telefonou a um amigo, pedindo referência de alguém:
- Você conhece o Cláudio?
- Sim, doutor Roberto, há muitos anos.
Roberto Marinho queria nomear a pessoa para um cargo de chefia numa de suas empresas.
- Que é que você acha do Cláudio?
O homem, no outro lado da linha, falou das qualidades do Cláudio em questão. Referiu-se também aos defeitos, que eram poucos.
- Diga-me uma coisa. O Cláudio sabe demitir?
O interlocutor não estava preparado para responder. Houve dois segundos de silêncio . Apressado,
Roberto Marinho engatilhou a pergunta seguinte:
- Ele é capaz de demitir o melhor amigo?
Antes que tivesse uma resposta, fechou a questão:
- A principal qualidade do chefe é saber demitir.
Evandro Carlos de Andrade sabe demitir. Dependendo do motivo, demite a frio o melhor amigo. Sua prova de fogo foi no dia em que recebeu a instrução terrível:
- Vá à TV Globo e demita o Otto.
Otto Lara Resende, nesse tempo, escrevia um artigo semanal em O Globo e tinha um cargo na televisão. Parece que um de seus artigos deixou o presidente da organização muito contrariado.
- Está bem, doutor Roberto .

Evandro voltou a seu gabinete na redação, bateu uma caninha se demitindo, mandou a secretária levar a carta e foi A TV Globo demitir Otto Lara Resende. O trânsito no Jardim Botânico, por acaso, não estava ruim. Evandro chegou em vinte minutos à Rua Lopes Quintas. Subiu ao oitavo andar, onde Otto o recebeu, intrigado.
- Que é que está havendo, Evandro? O Roberto ligou para cá, duas vezes, aflito, à cata de você. Pediu para não fazer nada antes de falar com ele.
A demissão estava desfeita.
Otto, no entanto, sempre se queixou do distanciamento do amigo, a cuja personalidade atribuía um componente de frieza.
- O Evandro nasceu no pólo. E glacial por natureza.

Otto escreveu, durante anos, o tal artigo semanal em O Globo e jamais ouviu um comentário de Evandro: nem para elogiar nem para criticar. Evandro só demonstrava importar-se com o tamanho do artigo, que queria reduzir. Otto lhe mandava uma saraivada de bilhetes, sem resposta. Evandro não responde cartas. E um homem da via telefônica. Mas a velha amizade nunca foi rompida e Evandro lamentou muito quando Otto se mudou,de armas e bagagens, para a Folha de S. Paulo.

O fato de alguém de sua equip e abandonar a empresa não leva a rompimento, se a pessoa é de sua estima e consideração . O repórter Merval Pereira, por exemplo, foi fazer um curs o nos Estados Unidos, mandado por o Globo. Quando voltou, assumiu um cargo no Jornal do Brasil. Era de imaginar que nunca mais se ajeitasse em O Globo. No entanto, Evandro o quis de volta, fez dele chefe da sucursal de Brasflia. Merval acabou sucedendo-o como diretor de redação.

Mesmo no caso de um funcionário que trai sua confiança, Evandro não é um chefe de memória punitiva. Muitas vezes, pergunta a Caban, quando alguém, demitido, quer voltar:
- Por que é mesmo que tenho raiva desse cara?

Um dia, em 1972, quando Merval Pereira tinha 22 anos, foi chamado à sala dele, que perguntou de chofre:
- Você acha que todo juiz de futebol é ladrão?
Merval respondeu que sim . Era uma segunda-feira. Na véspera, o juiz tinha anulado um gol do seu time, o Fluminense.
- Vamos com calma - retrucou Evandro.
- Não é bem assim. Você está generalizando.

Começaram uma longa conversa sobre futebol, ao fim da qual Evandro defendeu a tese de que o esporte é a melhor escola para um jovem repórter, que desej a aprender sobre a vida, os homens, a política e o mais.

Tudo isso apenas para propor que o rapaz fosse transferido da reportagem geral para a editoria de Esportes. E a maneira de Evandro chefiar.

Tem o hábito de se levantar da cama às cinco da manhã. A essa hora, um dos primeiros exemplares de O Globo, trazido por um motoqueiro, já está à soleira de sua porta, no Parque Guinle, em Laranjeiras. Ele se dava, então, o trabalho de ler todas as notícias, página por página, da primeira à última coluna, assinalando à margem, com uma caneta esferográfica, qualquer erro ou incorreção, tanto de forma como de conteúdo. Anotações em tom desabusado: "Isso é uma besteira!" ou "Que idiotice!" A bronca era maior quando se tratava de questão de ética. Nesse ponto é rigorosíssimo.

As nove horas, ele entrava na redação, a passos largos, distribuindo com os editores as páginas anotadas para a cobrança de todo dia.

Os jornalistas de O Globo, ao abrir de manhã o terminal do computador, deparam com o relatório do editor de opinião, Luís Garcia, responsável pela qualidade do texto : "Algumas observações sobre o jornal de hoje", mais conhecidas como "Algumas". Desse trabalho de peneira fina por que passa o texto de O Globo resultou o Manual de Redação e Estilo, livrinho na 17° edição.

A preocupação de estilo é uma marca que Evandro Carlos de Andrade traz do Diário Carioca, jornal cujo folheto Regras de Redação começava com esta frase: "Escrever sempre a máquina, de um lado só da folha, no papel padronizado e em espaço dois." Atenção: a máquina sem crase no a. Se alguém quer aborrecer Evandro, basta crasear onde não deve.

Foi o Diário Carioca que introduziu na imprensa brasileira o copidesque. No ano de 1953, o principal reescrevedor do DC era um jovem jornalista chamado Armando Nogueira. Certo sábado, no mês de novembro, ele chegou à redação mais cedo, por volta de meio-dia . Precisava sair às duas e meia para jogar a pelada semanal com os amigos . O chefe da redação, Pompeu de Sousa, entregou-lhe, sem ler, um calhamaço datilografado.
- Reescreva isso .

Era um perfil do promotor Cordeiro Guerra, escrito por um "foca" de 22 anos, empregado de hotel, que alguém tinha apresentado, uma semana antes, ao chefe de reportagem, Luís Paulistano.

De caneta em riste, Armando preparou-se para corrigir os erros, antes de reescrever o texto . Ainda estudante de Direito, interessou-se pelo assunto. Cordeiro Gerra era tido, no Rio, como um promotor terrível, que conseguia sempre, no júri, a condenação do réu.

No fim da leitura, a caneta de Armando continuava na mão, sem ter sido usada. Ele devolveu as laudas. 
- Matéria perfeita. Não há o que mexer.

Pompeu de Souza, futuro senador por Brasilia, que ainda não tinha sido fundada, ficou irritado
- Você é um preguiçoso. Está querendo sair para o bate-bola 
- Nada disso, Pompeu . Passe a vista. Pompeu de Sousa leu a história, lauda a lauda, com atenção. Não encontrou uma vírgula a mais nem a menos. No dia seguinte, domingo, o perfil de Cordeiro Guerra saiu na primeira página, assinado: Evandro Carlos de Andrade.

Três anos depois, em 1956, ele substituía Pompeu de Sousa, promovido a diretor . Passava a ser chefe de Armando Nogueira, o mesmo Armando que, em 1990, aposentou-se como diretor de Jornalismo da Rede Globo, cargo que, agora, Evandro assume. "Voltas que o mundo dá, como diria Dom Frei Bartolomeu dos Mártires", segundo Frei Luís de Sousa, clássico português que Evandro leu no ginásio.

Ter lido os clássicos não explica por si só o fato de Evandro escrever bem, desde menino. Será que foi por ter nascido num colégio? Ele nasceu num quarto do Colégio Vera Cruz, A Rua São Francisc o Xavier, no Maracanã, Rio de Janeiro. O colégio tinha sido fundado por seu avô materno, o professor João Auto Magalhães de Castro, um ex-seminarista, que estudou latim e direito canônico em Roma. O netinh o entrou para o jardim da infância na própria casa.

Libriano com ascendente em câncer, faz aniversário em 17 de outubro . O signo pressupõe ligação com a harmonia e o equilíbrio, indica tendência a ver os dois lados da questão . Já o ascendente sugere tenacidade, perseverança para atingir o objetivo, afeição aos companheiros, influência da herança familiar.

No Diário Carioca, de imediato, ganhou estranho apelido : Palmeira Triste . Por extenso, Palmeira Triste à Beira de um Regato em Noite de Luar (sic). Todo mundo era apelidado na redação. O famoso copidesque José Ramos saiu do Diário Carioca José Ramos Tinhorão para o resto da vida . Armando Nogueira dava-se o luxo de ter dois apelidos : Neném Dodói, vulgo Perninha de Rã. Ainda hoje se aborrece, quando um antigo colega grita, de longe, na rua : "Perninha! "

Pompeu de Sousa, que se chamava Roberto Pompeu de Sousa Brasil, gostava de chamar os amigos pelo nome completo: Otto Oliveira de Lara Resende. Se achava curto, encompridava: Evandro Carlos de Andrade Murici. Murici, em homenagem a um ex-famoso crítico de música, Andrade Murici. Só mais tarde, houve um general de exército com esse nome.

Evandro, o Murici, teve, portanto, sua fase de Palmeira Triste. Palmeira, é claro, pela altura e a magreza. Mas Triste por quê? Depois da adolescência, era dado a depressões . Uma vez confessou ao colega Pedro Gomes, mais triste do que ele, sua insuspeitada vocação de monge trapista:

- Meu sonho é terminar numa ilha deserta em mutismo total.

O destino do homem o acabrunhava .

- A vida, que projeto terrível! Só a gente ter a consciência e a certeza de que nossos filhos estão destinados a morrer...

Vinha de uma adolescência muito sofrida. A família teve um baque financeiro no fim da Segunda Guerra Mundial. Os Andrade do Maracanã perderam tudo.

Na Copa do Mundo de 1950, um irmão transformou o quintal de sua casa, perto do estádio, em estacionamento, onde foi flanelinha . Evandro conta num artigo que assistiu ao penúltimo jogo da Copa, sozinh o e na geral: "Desconfio que devo ao desconforto de ter visto Brasil X Espanha de baixo para cima (essa era a impressão causada antes da reforma do estádio que elevou o piso) a minha determinação de trabalhar muito o resto da vida. Garantia de nunca mais sofrer como geraldino".

Passou por um per odo de internato num colégio de banheiros horr veis . Sem conseguir freqüentá-los, disciplinou o intestino a tal ponto que só resolvia o problema nos domingos, que passava em casa. Durante a semana, com força de vontade, ignorava o aparelho digestivo.

Depois de dois vestibulares e dois cursos interrompidos no primeiro ano, História e Direito, a mãe foi buscá-lo, um dia, na ilha de Paquetá, onde tinha se refugiado para descansar. Tirou-o da modorra para um emprego que a família lhe conseguira no bairro do Flamengo: adicionista do Hotel Novo Mundo.

A palavra não está no Aurélio, mas existe. O adicionista ficava em pé, numa bancada, a lançar no livrão da contabilidade o consumo diário de cada hóspede.

O choque do trabalho o despertou. O rapaz saiu da depressão . Tinha um sonho vago: o jornalismo. O pai gostaria de que ele escrevesse paraprogramas de rádio, o que achava o máximo. Evandro arranjou, só por alguns meses, o lugar de plantonista de polícia, de madrugada, num jornal de segunda linha, o Correio Radical. Foi um passo para o Diário Carioca. As cinco da manhã, terminado o plantão, ele comia em pé o famoso angu do Gomes, na Praça Quinze. Dormia duas horas e se apresentava às oito no Novo Mundo para o expediente.

Além de adicionista, Evandro teve na vida outro emprego esquisito: o de conferente da Casa da Moeda, um cargo isolado de provimento efetivo no Ministério da Fazenda, para o qual foi nomeado no governo Juscelino . Era um trabalho duro, segundo os amigos. Tinha de contar dinheiro em moedas . Uma tarefa de operário, só que envolvia confiança

O salário de conferente, somado ao que ganhav a no Diário Carioca, dava para viver, mas o jornal atrasava o pagamento . As vezes, três, quatro meses. Casou-se, em 1957, aos 26 anos, com a namorada da adolescência, Miriam, e teve de enfiada quatro filhos. Agora tem nove netos.

Na fase da pobreza, seu guarda-roupa era mínimo: um terno só. Em compensação, quando começou a ter dinheiro no bolso, foi à forra. Sempre gostou de se vestir com abundância e elegância. E do tempo em que, com camisa de listas, só se usava gravata lisa da mesma cor.

Alto, magro, espadaúdo, sem barriga, olhos verdes, óculos de professor, Evandro cuida da aparência. Não cultiva o corpo, como Armando Nogueira, mas faz ginástica todo dia.

O cineasta Luiz Carlos Barreto, quando filmava o romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, meteu na cabeça que ele seria o tipo ideal para o personagem Fabiano, um vaqueiro de Alagoas. O diretor do filme, Nélson Pereira dos Santos, tinha trabalhado no Diário Carioca como copidesque. Vaidoso, Evandro ficou tentad o pelo convite, mas acabou substituído por um ator de verdade, Atila Iório.

- Que grande artista o cinema brasileiro perdeu!
- Barreto costuma exclamar, toda vez que se encontram, no Rio.

Evandro é fascinado até hoje por cinema. As vezes, vê três filmes no fim de semana. Organiz a sessões de projeção, em cabine, para grupos de amigos. Quem é convidado para essas sessões pode-se considerar uma pessoa em alta conta em su a
estima e respeito.

A outra diversão é o pôquer. Considera-se um exímio jogador, frio, seguro, que sabe blefar. Durante muito tempo, no Rio, jogou na mesma roda de pôquer, uma roda de que faziam parte Armando Nogueira, João Araújo, Paulo César Ferreira, Jorge Adib , Paiva Chaves e outros.

- O Evandro não gosta de jogar - acha um deles - gosta de ganhar. E diferente.

Como o pôquer é um jogo que se aprende, à medida que os parceiros iam ganhando habilitação técnica, a roda se tornava equilibrada, ele perdia o interesse, acabava se afastando.

No tempo do caraoquê, freqüentou muito as casas do gênero, com a mulher. Não é amigo de jantares, coquetéis, recepções . Convidado, faz a parte indispensável, procurando sair de cena na primeira oportunidade. Meia-noite é seu horário máximo de tolerância e paciência porque, no dia seguinte, acorda às cinco da manhã.

A seu melhor amigo, Carlos Castelo Branco, nunca chamou de Castelinho. Só Castelo. Por volta de 1958, eles passaram a dividir a chefia de redação do Diário Carioca . Trabalhavam dia sim, dia não. Daí a pouco estavam se revezando de dois em dois dias. Depois, de três em três . Antes que se alternassem semana a semana, o dono do jornal, Horácio de Carvalho Júnior, chiou:

-Agora vocês escolhem: ou um ou outro. Não dá para continuar assim.

Não aceitaram. Um jornalista de fora, Ascendino Leite, foi convidado para o cargo . Castelo voltou para a reportagem política. Evandro foi para a editoria de Esportes, onde substituiu, aliás, Luiz Carlos Barreto.

A grande mudança, na vida de todos, deu-se com a eleição de Jânio Quadros para a presidência. Evandro mudou-se com a família para Brasília. José Aparecido, secretário de Jânio, levou-o para cuidar da correspondência particular do presidente. Durante seis meses, ele se divertiu, usando nas cartas o estilo arrevezado de Jânio. Para quem o conhece, é difícil imaginá-lo na estranh a ocupação de escrever cartas, em nome de alguém. Só mesmo sendo cartas de outra pessoa. Na vida real, Evandro só escreve cartas quando precisa brigar - procedi - mento que o mineiro Otto Lara Resende nunca entendeu.

- Você falando, as palavras desaparecem. Escrevendo,elas ficam para sempre. Em latim, verba volant.

Evandro, no entanto,só briga por escrito. Na carta, ele diz os desaforos que deseja dizer, nem mais, nem menos. Apesar disso, se arrepende. Em carta, é sempre desaforado.

Com a renúncia de Jânio, não voltou para o Rio. Passou a trabalhar em duas sucursais de Brasilia: a do Estado de S. Paulo e a do Jornal do Brasil.

No ano seguinte, 1962, esteve muito doente, quase desenganado. Dois meses entre a vida e a morte, no Hospital de Base, aquele em que Tancredo Neves se operou . No caso de Evandro, a operação foi uma raspagem na garganta. Sobreveio uma série de complicações: febre reumática, nefrite, flebite, enfarte pulmonar. Ficou bom da noite para o dia, graças a uma alimentação macrobiótica e ao médico que o banqueiro José Luiz Magalhães Lins mandou do Rio para tratá-lo.

José Luiz é seu amigo há 30 anos. Outro amigo íntimo é o ex-presidente José Sarney, desde uma noite, em 1960, quando Sarney, recém-eleito deputado pela UDN do Maranhão, foi levado por José Aparecido a um jantar em seu apartamento da Rua Sá Ferreira, em Copacabana. Característica de Aparecido: chegar na sobremesa, trazendo alguém.

Evandro assumiu, em 1967, a chefia da sucursal do Estadão. A essa altura, estava certo de que passaria o resto da vida em
Brasília, onde havia até construído uma casa. Mas veio o ano de 1971, que foi decisivo em sua vida. Em 1971, recebeu dois convites: um de São Paulo, o outro do Rio.

De São Paulo, em janeiro, Fernando Pedreira chamou-o para chefiar a redação do Estadão. Recusou porque, naquele tempo, as editorias do jornal eram verdadeiros feudos: cada editor respondia a um Mesquita diferente, por cima do diretor.

Um dia, perto do fim do ano, Carlos Castelo Branco entrou em sua casa, dizendo que trazia do Rio um convite de Roberto Marinho para ele dirigir O Globo.
- Por que não você, Castelo?
- Porque não fui convidado.

O amor de Evandro por O Globo, um amor de homem maduro, foi à primeira vista. Deu o sim, sem pestanejar. A partir daí, começou a mudança.

Nenhum grande jornal, em 1971, revelava a tiragem. Pelos estudos da agência Marplan, O Globo deveria tirar menos de 100 mil exemplares, de segunda a sábado . Não tinha assinantes. Passou a vender assinaturas. Passou a circular aos domingos. Hoje tira 370 mil exemplares durante a semana. Mais de um milhão aos domingos.

Era um vespertino que chegava às bancas entre 11 horas e meio-dia, com pico de venda às seis da tarde. Foi recuando a edição até se tornar matutino com o todos os outros . A transformação tecnológica, que vei o com a informatização e o off-set, se refletiu na qualidade editorial. Vinte e cinco anos atrás, os jornalistas de O Globo acreditavam na máxima: "O que O Globo não deu, não aconteceu ." Hoje é um jornal qualitativo, de credibilidade.

Quando Evandro Carlos de Andrade desembarcou na redação, em 1971, ainda se confundia matéria redacional com matéria publicitária. Havia um quadro pequeno de colaboradores gratuitos. Repórteres não assinavam matérias. Agora, o jornal tem até dois colunistas de página inteira. Os chargistas, esses chegam a contrariar,na primeira página, a linha dos editoriais, que não mudou.

O Globo mantém uma posição conservadora, neoliberal. Defende a redução do papel do Estado, a privatização em larga escala, a reforma da Previdência, a entrada do capital estrangeiro sem restrições,a abertura ao mercado externo, a justiça social com desenvolvimento, a política externa pró-ocidental, as boas relações com os Estados Unidos, a amizade com Portugal, a Igreja Católica, a liberação dos portos e o controle da natalidade. E contra o monopólio estatal, a reserva de mercado, o corporativismo, a greve nos serviços públicos, o sindicalismo do tipo CUT, a estabilidade dos funcionários, as mordomias e a teologia da libertação.

Uma das birras de Evandro, quando chegou a O Globo, era o editorial diário de primeira página, em rodapé, menina dos olhos de Roberto Marinho. Tanto fez que o transferiu para dentro do jornal. E nada de editoriais longos, muito menos de linguagem rebuscada. Como alternativa, o próprio Roberto Marinho teve a idéia dos chamados artiguetes, mini editoriais hoje espalhados em diversas páginas . Eles têm um defeito: comentam quase sempre o fato noticiado na véspera, não o do dia .

Não é da escola de Evandro dar importância a editoriais. Acha que os artigões alcançam um univers o mínimo de leitores e, na primeira página, reduzem a venda do jornal. Ele, no entanto, tem fama de bom editorialista. Escreve numa linguagem acessível a qualquer leitor. Solta-se mais nos artigos assinados. Esses costumam ser agressivos e polêmicos.

- E preciso vestir a camisa do jornal e da empresa - gosta de dizer aos comandados.

Atacar O Globo ou atacar Roberto Marinho é atacá-lo pessoalmente . Reage como a uma ofensa pessoal. Não tem papas na língua . Foi o que aconteceu na briga com o ombudsman da Folha. O ombudsman tinha atacado o jornal, não a ele. O casamento de Evandro Carlos de Andrade com O Globo iria completar bodas de prata no ano que vem: 25 anos. Como acontece nos casamentos de verdade, eles estavam cada vez mais parecidos. Um é a cara do outro.

As coisas pareciam para sempre . De repente, um abalo em sua vida: a mudança do jornal para a televisão, casar a palavra com a imagem, ver em vez de ler.

A transformação interior, que ele vive, começou há um ano, quando teve um filho, Leonardo, com a segunda mulher, Teresa .

Evandro é um homem com os olhos na linha do horizonte - diz um amigo . - Quem passa de avô a pai, aos 63 anos, acredita na vida .

No dia seguinte à festa do Hippopotamus, que terminou às duas da manhã, foi visto, às nove em ponto, quando entrava para trabalhar no prédio da Vênus Platinada, sede da TV Globo. Saltou do Peugeot vermelho com um grande quadro em preto-e-branco debaixo do braço - o mesmo quadro que, durante anos, enfeitou a parede de seu gabinete em O Globo. E a reprodução ampliada de uma tira do quadrinho Non sequitur, do desenhist a americano Wily, que o jornal publica, todo dia, na página 12 . Título da tira copiada: "Como repórteres começam seu dia de trabalho". O desenho mostra o ambiente de uma redação, com mesas e jornalistas. O balão na boca do personagem diz o seguinte: "Hoje sou especialista em política, economia, mecânica de automóveis, assistência médica, televisão, astronáutica, bioengenharia, política internacional, municipalismo, petróleo, gás de cozinha, esporte, ações, taras, oboé, explosivos, computadores, encanamentos, comida, emissários submarinos, fusão nuclear, lipoaspiração, novelas de TV, paz mundial".

A essa extensa lista, Evandro Carlos de Andrade acrescentaria, com certeza, quatro itens, que ele gosta de citar, quando defende a ética da profissão:

- Nós, jornalistas, precisamos de saber bastant e bem o que é: (1) calúnia, (2) injúria, (3) difamação, (4) crase.


Veja, em breve, mais matérias com Evandro Carlos de Andrade!


(Foto: TV Globo/Cedoc)