Henfil uniu política e humor para driblar a ditadura do bom-mocismo

Vanessa Gonçalves* | 05/03/2013 14:00
Sarcástico, irreverente e realista. Assim era Henrique de Souza Filho, o Henfil. Há 25 anos, o multifacetado cartunista, quadrinista, jornalista e escritor deixava a vida após ser uma das primeiras vítimas do vírus HIV no Brasil. Hemofílico como seus outros irmãos – o sociólogo Herbert de Souza e o músico Chico Mário –, contraiu a doença em uma das constantes transfusões de sangue a que teve de se submeter.

Morreu no auge de sua carreira, deixando órfãos os fãs de suas personagens e de seus textos ácidos, que, com humor sutil, enfrentavam a censura da ditadura militar, levando ao leitor um pouco daquele Brasil que vivia escondido nas sombras de um regime autoritário, que afastou dele e de sua família o irmão Betinho, militante político exilado no exterior após ser cassado – e caçado – pelos militares.

Porém, antes disso, o mineiro Henriquinho, como era chamado antes de se tornar Henfil, começou a carreira na revista Alterosa, em 1962, sendo lançado pelo jornalista e escritor Roberto Drummond. Logo fez sucesso e passou a colaborar com o Diário de Minas.

Como Minas Gerais tinha ficado pequena, em 1969 Henfil mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de encarar novos desafios e reproduzir nas páginas dos principais jornais e revistas do País seus cartuns e quadrinhos desconcertantes, não só pelo humor, mas pela crítica afiada à política e aos rumos do Brasil e do mundo naquele período.

A influência de Henfil no traço era tamanha, que trabalhou para os principais periódicos daquele tempo, como Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, O Dia, O Sol, A Notícia, IstoÉ, O Globo, Última Hora, Placar, Cruzeiro, Realidade e O Estado de S. Paulo.

Também foi um dos fundadores de O Pasquim, um dos principais semanários de oposição ao regime militar, que, em 1970, chegou a ter tiragem de 200 mil exemplares, tornando-se um dos maiores fenômenos do mercado editorial brasileiro.

Os principais personagens de Henfil, “Os Fradinhos”, surgiram ainda em Minas Gerais, mas ganharam expressão quando passaram a estampar O Pasquim e outros jornais de prestígio nacional, como relembra Ziraldo. “Foi ali [n’O Pasquim] que ele lançou nacionalmente seus fradinhos famosos, criando uma das maiores figuras da história da caricatura brasileira, o Fradinho Baixinho, seu alter ego, um personagem inesquecível, que eu diria imbatível se, algum tempo depois, o mesmo Henfil não tivesse criado a Graúna. E mais o Bode Orelana e o cangaceiro Severino.”

A “Turma da Caatinga”, representada por Graúna, Bode Orelana e o cangaceiro Severino, surgiu em 1972 para desafiar a ditadura militar, ironizando a censura, a desigualdade social, a corrupção e outras mazelas, com um trio divertido que sonhava invadir o sul-maravilha.

Para Paulo Caruso, companheiro de redação e amigo do cartunista, Henfil, “de formação religiosa, chamou para si a responsabilidade da transformação social através do humor, refletindo sobre o mundo que o cercava por meio da criação de seus personagens imortais”.

Henfil desafiava o status quo do Brasil sob o poder dos militares com ironia e humor. Personagens como “Ubaldo, o paranoico”, sugiram justamente dessa intenção de escancarar os sentimentos da nação. Criado em 1975, pouco antes da morte do jornalista Vladimir Herzog, o personagem ficou arquivado para não chamar a atenção da censura e só ficou conhecido em abril de 1976. Ubaldo representava o clima de medo que dominava as fileiras da esquerda, então dizimadas pela repressão. Os poucos que ficaram de fora das garras do monstro da ditadura viviam como o personagem de Henfil, paranoicos.

Caruso garante que Henfil “não perdoava a paranoia dos Ubaldos, os paranoicos da época, diante da repressão e cerceamento às liberdades de expressão que nos ameaçavam”, e, por essa razão, dava vazão ao que não podia ser dito explicitamente em quadrinhos e cartuns.

Tamanha era a responsabilidade do cartunista em levar à frente seu projeto, que deu voz também aos trabalhadores, classe que, na década de 1980, ressurgiria abraçando causas como as “Diretas Já”. “Orelhão” era um operário baixinho, de macacão e capacete, que discutia o cotidiano dos trabalhadores sempre acompanhado de um amigo engravatado.

Sofrendo a distância do irmão exilado, Henfil transpunha seu horror aos colaboradores do regime militar nas histórias do “Cabôco Mamadô”, que fazia questão de enterrar no Cemitério dos Mortos-vivos personalidades que, de um jeito ou de outro, apareciam ligados à ditadura. Foram “vítimas” de Henfil nesta tirinha Roberto Carlos, Tarcísio Meira, Glória Menezes, entre outros.

No entanto, foram nas famosas Cartas da Mãe, publicadas na IstoÉ, que o cartunista/jornalista fazia cobranças mais diretas ao governo sobre assuntos como a anistia política, as desigualdadessociais e as mudanças necessárias para o Brasil.

Em tom intimista, Henfil escrevia à sua mãe textos em que discutia o país, como numa carta trocada entre familiares comentando o cotidiano.

Politizado, Henfil abraçou causas como a luta pela anistia política aos presos políticos – merecendo assim uma citação na música “O Bêbado e a Equilibrista” –, as “Diretas Já” e as Greves Operárias no ABC, na década de 1980, tornando-se um dos entusiastas pela fundação do Partido dos Trabalhadores.

O gênio do traço ainda se aventurou na TV, apresentando o quadro “TV Macho”, no programa “TV Mulher”, da Rede Globo, no teatro, no cinema e na literatura, lançando sete livros.

Nos seus quase 44 anos de vida, Henfil produziu muito. Deixou um acervo de aproximadamente 15 mil originais, fora os que se perderam com o tempo. Para seu filho, Ivan Consenza, “ele fazia o trabalho esperando as reações das pessoas. Fazia um desenho para provocar uma determinada reação: a indignação, a vontade de lutar por direitos. Ele usava seu trabalho para isso”. Parece que conseguiu. Passados 25 anos, muitos dos trabalhos de Henfil são tão atuais quanto na época em que foram publicados, o que mostra que o cartunista foi um homem do seu e de outros tempos.

*Com Jéssica Oliveira