Símbolo de humor inteligente e escrachado, Jaguar completa 60 anos de carreira

Danubia Paraizo | 03/04/2014 14:00
“Olha, me desculpa, mas quando faço uma promessa, eu costumo cumpri-la à risca. Então, não vou mesmo dar mais entrevistas”. A negativa do cartunista Jaguar à reportagem de IMPRENSA era mais que justificada, e não era “nada pessoal”, como deixou claro por telefone. Às vésperas de completar 60 anos de carreira, ele já havia declarado ao jornal O Globo, em fevereiro, que aquela seria sua última entrevista. Ou talvez a penúltima. “Depois de sair no Globo, só falo para o New York Times”. E de fato, o criador de O Pasquim, verdadeiro laboratório de grandes cartunistas, como Ziraldo, Millôr Fernandes, Henfil, entre outros, vem mantendo a promessa.

Crédito:João Laet
Jaguar foi um dos criadores de "O Pasquim"
Felizmente, o que não faltam são amigos de longa data e colegas de trabalho dispostos a revelar qual é a fórmula para Jaguar se manter tão jovem e com humor tão afinado no auge de seus 82 anos. Aroeira, que publica suas charges no jornal O Dia, ao lado do colega, tem uma pista. “O Jaguar é um cara muito engraçado. Ele não deixa de dar nenhum recado, diz o que tem vontade. Ele é um dos poucos caras mais velhos que a garotada respeita, o que dá uma boa dimensão da vivacidade de seu trabalho. Ele consegue ser engraçado em qualquer época”.

No jornal, além das charges às segundas e quintas-feiras, às sextas ele publica o “Boteco do Jaguar”. Para fazer jus ao apelido “pé-de-boi”, dado pelo amigo e cartunista Chico Caruso, ele também publica aos sábados um artigo de opinião. Famoso por suas colagens em cima das charges, e pelas sacadas afiadas para criticar a política e situações do dia a dia, Jaguar foi criando um estilo tão próprio que se tornou à prova de plágios, como lembra Caruso. “Até gostaria de ter sido influenciado pelo trabalho dele. Mas sua assinatura é tão singular que não dá para imitar. Acho que por isso sou até mais fácil de ser copiado do que ele”.

Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, ou simplesmente Jaguar, começou sua carreira na revista Manchete, em 1958, época em que os irmãos Paulo e Chico Caruso já se deslumbravam com seu trabalho. Algumas décadas mais tarde, os cartunistas se tornariam grandes amigos. “Vim para o Rio de Janeiro em 1978 para trabalhar no Jornal do Brasil, mas curiosamente, a gente se conheceu em São Paulo, no Salão Internacional do Humor de Piracicaba”, lembra Chico.

Um dos principais apoiadores do salão do humor desde sua criação, em 1974, Jaguar foi jurado ao longo de muitos anos do evento, que assim como O Pasquim, conseguiu resistir aos desmandos da Ditadura Militar. “Esses dias estávamos conversando sobre o jornal e como ele driblou a censura. Jaguar tem uma presença de espírito tão grande que, mesmo em situações aparentemente ruins, consegue tirar o melhor. Da repressão teve energia para transformar tudo aquilo em criatividade”, destaca o jornalista Aziz Filho, diretor de redação do jornal O Dia.

Anarquista da piada
Filho de mãe pianista clássica e pai diretor do Banco do Brasil, Jaguar cresceu em meio à leitura de grandes pensadores e poetas, como Charles Baudelaire, um de seus favoritos. Carioca da clara, como costuma brincar, já que seus pais eram paulistanos, Jaguar tem papel importante também fora do jornalismo. Ele participou da criação do bloco carnavalesco Banda de Ipanema, em 1964, responsável por trazer de volta o carnaval de rua no Rio de Janeiro. O bloco marcado pela irreverência perdura até hoje. “Até os 18 anos ele era um intelectual meio existencialista. Foi quando resolveu entrar para a Marinha Mercante, lá conheceu diversos amigos, e desenvolveu seu humor fantástico”, conta Chico.

Com passagens pela revista Senhor, onde conheceu Paulo Francis e Ivan Lessa, Jaguar também colaborou para a Civilização Brasileira, Pif-Paf, além dos jornais Última Hora e Tribuna da Imprensa. Em 1969, surgia O Pasquim, veículo criado com apoio dos jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral. Além de cartunista, Jaguar atuou também como editor. Ao longo de 24 anos de existência, o veículo ficou reconhecido por seu papel de resistência durante a Ditadura Militar. Não à toa, toda a redação, incluindo Jaguar, passou alguns meses na pri são em 1970, depois que o jornal publicou uma sátira do famoso quadro em que Dom Pedro I aparece às margens do rio Ipiranga.

Esta não foi a primeira nem a última vez que o veículo sofreu censura. No próximo 1º de abril, como lembrou o cartunista em sua coluna no jornal O Dia, o País “comemora” 50 anos do Golpe Militar, mas ainda cabem alguns questionamentos. No texto publicado no último dia 15 de março, Jaguar alerta para “o ovo da serpente” que não foi destruído. “E não venham me dizer que a censura é coisa do passado, morta e enterrada. (...) Mato a cobra e mostro o pau: andam falando em controle dos meios de comunicação”. E completou: “Quem me garante que, com esse Congresso que temos, não vem aí um baita arrocho na imprensa? O mais preocupante é que muita gente encara a censura como coisa natural”, finalizou.

Ao refletir sobre a trajetória do amigo, o qual conhece já há quase 30 anos, Aroeira consegue sintetizar em poucas palavras o espírito de Jaguar. “Ele é um subversivo, mas seria um subversivo em qualquer regime imaginável. Ele é o anarquista da piada”.