Especialistas resgatam grandes coberturas de meio ambiente e contam desafios da editoria

Gabriela Ferigato e Rodrigo Alvares | 05/06/2014 15:15
Em mais de quarenta anos, a cobertura da pauta ambiental no Brasil já passou por diversas fases. Desde seu advento, ao fim da década de 1960, até as polêmicas e atuais mudanças climáticas, repórteres e editores enfrentam uma miríade de assuntos que vai do espaço para estas notícias nos jornais, à preparação dos jornalistas ambientais e à luta para manter o assunto no rol dos que merecem a atenção da mídia.

Em 1968, o jovem repórter Randau Marques foi o primeiro jornalista brasileiro a se especializar em meio ambiente. Randau foi considerado subversivo na época porque escreveu em um jornal da cidade paulista de Franca reportagens sobre a contaminação de gráficos e sapateiros com chumbo. Mais tarde, pelo Jornal da Tarde, ele cobriu, em Porto Alegre (RS), a primeira polêmica ambiental envolvendo uma grande indústria. O fechamento da fábrica de celulose Borregaard, do dia 6 de dezembro de 1973 até 14 de março de 1974, atraiu a atenção de jornalistas de outros estados e do exterior.

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Especialistas destacaram momentos marcantes da cobertura de meio ambiente
No entanto, não é a imagem de uma chaminé que representa a época. Foi a famosa foto do estudante universitário Carlos Dayrell sentado numa acácia, em dia 25 de fevereiro de 1975. Ele ficou horas em cima da árvore que seria cortada pela prefeitura de Porto Alegre para a construção de um viaduto. Os protestos dos ecologistas ganharam ampla cobertura da imprensa, “amordaçada” pela censura militar.

O novo boom ocorreu em meados dos anos 1980, com a descoberta do buraco na camada de ozônio e as primeiras hipóteses sobre o impacto das atividades humanas no aumento do aquecimento global. No decorrer da década de 1980 e principalmente após a conferência Rio 92, o tema ganhou a imprensa brasileira, que se voltou para os problemas ambientais da Amazônia.

Demanda reprimida
Para Altino Machado, acriano, ex-repórter dos jornais O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo, a evolução da pauta ambiental na mídia não aconteceu em decorrência da Rio 92. “Acho que já existia uma abordagem e espaço para temas ambientais na mídia. A Eco 92 não foi determinante para isso”, disse. “Antes, falavam muito da poluição do ar na região Sudeste do Brasil, poluição dos rios. Na Amazônia falavam sobre a questão do desmatamento, assassinatos de lideranças indígenas”.

Pouco tempo antes da Rio 92, as redações de jornais nacionais, como O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil dedicaram cadernos para informar temas ambientais. Na TV, a Manchete deu amplo espaço a Washington Novaes, um dos jornalistas pioneiros da questão ambiental, que fez, já em 1984, a famosa série “Xingu, a Terra Mágica”. Concomitantemente com a Rio 92, a Rede Globo lançou o programa “Globo Ecologia”, que existe até hoje.

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Altino Machado
Dal Marcondes, criador e diretor do Envolverde, afirma que a evolução dos assuntos foi muito forte. “A pauta era muito restrita a temas de desastres, além de um ou outro relevante para indústria ou para economia. Hoje é uma pauta mais abrangente. Quando você discute agronegócio, você discute meio ambiente, código florestal, energia, construção de hidrelétricas etc.”, diz.

Nesse ponto, é importante salientar que a pauta ambiental mereceu destaque da imprensa escrita e televisiva. “A morte de Chico Mendes, por exemplo, foi um momento importante”, afirma Lúcia Chayb, fundadora e diretora do portal Eco 21. A opinião é compartilhada por Altino. “Comecei em outubro de 1988 e, um mês depois, Chico Mendes foi assassinado, e aí foi aquele barulho internacional. Mantivemo-nos até o julgamento do caso, em 1990. A partir dali, começou um esvaziamento”.

Em termos de política ambiental, as redações no Brasil começaram a pautar este tema com mais atenção a partir da Rio 92, conta Lúcia. “Tanto no plano nacional como internacional, a cobertura jornalística avançou muito. Por exemplo, na Rio 92, estiveram presentes pouco mais de dois mil jornalistas. Duas décadas depois, a Rio+20 registrou para cobertura da conferência oficial, 4.075 nomes da imprensa mundial e brasileira”.

Para o editor-chefe da revista National Geographic Brasil, Matthew Shirts, a Rio 92 foi o primeiro momento de tomada de consciência. “Acho que a preocupação entrou, os jornalistas tomaram conhecimento da pauta na Folha, Estadão e Veja. Publicações específicas são mais recentes, aí eu cito Ideia Socioambiental, a revista 22, da FGV”. Entretanto, foram criadas muitas mídias especializadas e quase todos os jornais criaram caderno para a cobertura da Rio 92. “Seis meses depois, a maior parte dos cadernos e dos veículos não existia mais, porque o tema hibernou”, afirma Marcondes.

Volume de cobertura
Gustavo Faleiros, que trabalhou no jornal Valor Econômico e no portal O Eco, aponta que usar de medida os cadernos exclusivos ajuda a explicar a vitalidade da cobertura no jornalismo brasileiro. “Foram momentos distintos dessa tendência. Desde 1992, a Folha era bem clara em colocar ‘Meio Ambiente’ dentro de ‘Ciência’, o que só mudou recentemente, depois do fracasso da COP-15, em Copenhagen (2009). Os temas ambientais passaram a ser domésticos. A questão da hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo, passou para economia”, disse.

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Gustavo Faleiros
Em meio à evolução da cobertura, boa parte dos entrevistados enfatizou as mudanças climáticas como novo carro-chefe do tema. “Os ambientalistas estavam preocupados na preservação de biodiversidade e em evitar que empresas poluíssem. Hoje, a situação é muito maior e mais complicada porque as mudanças climáticas atingem todos os setores e todos nós”, avalia Shirts.

Marcondes diz que, já em 1997, foi feita uma avaliação do desenvolvimento das coisas relacionadas à Rio 92 – além da assinatura do protocolo de Kyoto. “Foi a primeira vez que a questão do clima ganhou espaço na mídia por conta da evolução do acordo de redução de emissões”. De acordo com Shirts, não há um responsável, mas um modelo de uso de recursos naturais que precisa ser modificado. “Vai de secas, água, agricultura, lixo, mudanças climáticas, que é o grande acontecimento do século 21. Acho que a pauta só tende a crescer. Faz uns cinco ou seis anos que é uma pauta que chama atenção de todo mundo”.

Com a Rio+10, que aconteceu em 2002, os jornais começaram a trabalhar a pauta ambiental de forma mais sistemática. Surgiram também profissionais especializados na cobertura ambiental. Para Altino, houve um aprofundamento. “Muita gente passou a se dedicar por assuntos de meio ambiente. Grandes corporações de comunicação têm sempre um repórter que se dedica mais ao tema. De mais denúncias, passou a ter mais uma abordagem científica. Saiu um pouco do denuncismo”.

Shirts critica a falta de preparo dos jornalistas com relação aos temas da cobertura. “A Amazônia é explorada de forma superficial, mas porque é imenso, difícil e caro. Se na Amazônia, a limitação são os recursos e acessos, no caso de mudanças climáticas é conhecimento”. Para ele, os jornalistas não têm o conhecimento necessário, nem os editores, nem os donos das publicações. “Acho que mudanças climáticas ainda não são bem cobertas. Está melhorando, mas a grande imprensa ainda não sabe – e eu me incluo nisso até certo ponto –, não tem a capacidade necessária para discutir isso com propriedade”, afirma.

A preparação dos jornalistas e o embasamento dos textos são preocupações recorrentes, assim como o futuro da cobertura. Para Herton Escobar, repórter do jornal O Estado de S. Paulo, “o principal desafio do jornalismo ambiental é a falta de repórteres e a falta de espaço dedicado a esse tema na grande imprensa” (se referindo à crise mundial que o jornalismo impresso passa há alguns anos, com redução das equipes de reportagem e do número de páginas de vários jornais e revistas ao redor do mundo, como forma de contenção de gastos).

“A área ambiental, infelizmente, é uma das que mais sofre nesse processo, por não ser considerada uma área prioritária dentro do noticiário geral”, diz. “Sendo assim, há muito mais dificuldade para viajar e investir na produção de reportagens especiais, que necessitam de um tempo maior de apuração e longos deslocamentos”, conclui o repórter.

Outro fator importante, levantado por Dal Marcondes, é o preparo dos repórteres. “O pesquisador fala alguma coisa. Se ele não tiver preparo técnico para questionar, ele não vai conseguir apurar direito a matéria”. Já para Lúcia Chayb, “um jornalista ambiental está fadado a acompanhar a tecnologia de ponta e a propor soluções ambientalmente corretas para todos os desafios que ele decidiu aceitar”.

Com desafios editoriais e no dia a dia, o cenário nas redações não causa alívio. “Quase todos os profissionais que atuam na grande imprensa foram demitidos. Com isso, a sinalização que os editores dão é de que a questão ambiental não é prioridade”, diz Marcondes.

Questionado se os patrocínios – ou a falta deles – ajudam a compor este cenário, Shirts é taxativo: “Não. Estamos ultrapassando esse ponto. Esse não é o grande problema hoje. Nem eles anunciam tanto, e nem eles estão interessados em coibir a cobertura. Estão mais interessados em se adequar e achar maneiras de fazer uma produção sustentável”.

Lúcia vai nesta mesma direção. “A publicidade é fundamental para todo tipo de mídia. Hoje existe uma mudança no universo empresarial ao considerar a responsabilidade socioambiental das empresas e o seu papel no desenvolvimento sustentável. A publicidade não limita de forma alguma a tratar analiticamente os temas por mais polêmicos que eles sejam”.