Primeiro autor contemporâneo homenageado pela Flip, Millôr leva crítica e humor ao evento

Gabriela Ferigato e Jéssica Oliveira | 30/07/2014 16:00
Em 2003, o jornalista, escritor, desenhista, teatrólogo, tradutor, humorista, frasista, Millôr Fernandes (1923- 2012), participou da Tenda dos Autores na primeira Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Onze anos depois, Millôr volta ao festival como homenageado e torna-se o primeiro artista contemporâneo a ganhar o tributo, sendo o único que já palestrou no evento. 

“Vivem dizendo que a literatura contemporânea não é valorizada, que os autores não são valorizados. É uma forma de mostrar que a Flip está aí para discutir autores consagrados, assim como os que estão no processo de consagração”, explica o editor e jornalista Paulo Werneck, curador da 12ª edição do evento, que vai de 30 de julho a 2 de agosto.

Crédito:Marina Quintanilha
Paulo Werneck é curador da Flip
Onipresente em seu vasto acervo, a crítica política e a perspectiva bem-humorada de Millôr darão o tom em quase todas as mesas do evento, enquanto outras serão focadas nele e em aspectos de sua obra, marcadas pelo espírito livre e pela liberdade intelectual. “O Millôr era uma pedra no sapato do poder. Na nossa programação tem o Glen Greenwald, que revelou a espionagem do governo americano. É uma pedra no sapato deles. Tem uma jornalista argentina que discute o problema da imprensa com os Kirchner, mostra relações entre governo e mídia”, explica Werneck.

Além desses pontos, a proposta do evento é clara: com seu caráter eclético, erudito e popular, o festival não seria o mesmo sem Millôr, que “reunia o mundo da Flip num só”. Mas, a ligação da festa literária com o “Guru do Méier” deve ficar ainda maior. Segundo Werneck, a homenagem motivou 11 livros que chegam às livrarias nos próximos meses: cinco pela Companhia das Letras, quatro pela Desiderata, uma tradução e um pelo Instituto Moreira Salles (IMS). “É uma consequência. A Flip pautando o mercado, e não o contrário. Estamos ajudando no processo de consagração de Millôr”, diz. 

Crédito:Alex Carvalho/ TV Globo
"O humor no Brasil se divide em antes e depois do Millôr", diz Hubert Aranha 
Entre as obras, está "Millôr: 100 Frases + 100 Desenhos", que será lançada na festa. O livro é o primeiro resultado do contato do IMS com 7.858 itens do acervo do artista, incorporados em março de 2013. São 100 máximas escolhidas pelo jornalista Sérgio Augusto para os "Cadernos de Literatura Brasileira" dedicados a Millôr, em 2003, e 100 ilustrações nunca editadas em livro, escolhidas pelo desenhista e caricaturista Cássio Loredano, consultor do acervo.

“Escolher apenas 100 das melhores frases do Millôr é algo tão difícil quanto escolher os três melhores bailados de Fred Astaire, as cinco melhores músicas do Tom Jobim, os seis melhores quadros do Matisse e os quatro melhores gols do Pelé. Mas, topei o desafio”, escreveu Augusto, à época do pedido do IMS.

Tesouro aberto
Convidados para a mesa literária “Millôrmaníacos”, ao lado do cartunista Jaguar, os escritores e humoristas Reinaldo Figueiredo e Hubert Aranha, ex-“Cassetas”, acreditam que a homenagem mostra que um autor não precisa estar morto há muitas décadas para ser importante. “O Millôr está praticamente vivo. Ele poderia, e deveria, ser homenageado de corpo presente. Foi por pouco, só dois anos”, diz Figueiredo. “A obra do Millôr é cada vez mais contemporânea”, acrescenta Aranha.

Segundo os dois, que conviveram brevemente com Millôr n’O Pasquim e editaram nos anos 1980 uma filha da publicação, O Planeta Diário, a festa literária terá mais humor. “A boa literatura não tem que ser necessariamente grave, solene e sem graça... Ele era o humorista que mais passava a sensação de liberdade total, que é uma das qualidades do humor com H maiúsculo”, diz Figueiredo. “Um cara sozinho transformou um humor muito marcado pelo trocadilho em uma experiência intelectual capaz de fazer rir, além das nossas fronteiras mentais e geográficas. O humor no Brasil se divide em antes e depois do Millôr”, define Aranha.

Apesar da breve convivência n’O Pasquim, não faltam histórias. Figueiredo que o diga. Além do apoio no jornal, Millôr escreveu a contracapa de seu primeiro livro de desenhos. Mas, o momento inesquecível aconteceu numa das visitas ao estúdio do guru, quando Millôr quis presenteá-lo com um desenho original e abriu suas enormes gavetas. “Era uma espécie de arca de tesouro e eu fiquei um tempão para conseguir escolher um desenho. Foi uma espécie de exposição particular”, conta.

Crédito:Paulo Cardeal/ TV Globo
Reinaldo Figueiredo integrará a mesa "Millôrmaníacos", na Flip
Anos depois da difícil decisão, Reinaldo acredita que a obra de Millôr terá sempre um valor incalculável para a imprensa/arte brasileira. “Você via que ele não tinha, e não queria ter, compromisso. Era um cara independente, com uma visão muito pessoal do mundo. Transitava em várias áreas e embaralhava as fronteiras dos estilos”, diz.

Mesmo do ponto de vista familiar, o episódio que vem à mente do jornalista Hélio Fernandes ao falar do irmão remete ao jornalismo, carreira que iniciaram ainda adolescentes, após perderem os pais. "Hélio, você escreve muito bem, tua coluna e teu artigo são magníficos. Mas, você é um maluco! Escrever coluna e artigo diário? 

Ninguém no mundo é capaz disso", ouviu de Millôr em meados dos anos 1950. “Foi aí que me tornei jornalista de verdade”, lembra Hélio, que, aos 93 anos, soma oitenta de jornalismo. Para Hélio, Millôr fazia de tudo e era singular. “Um gênio jornalístico, o único que eu conheci”.

Entre janeiro de 1945 e 2003, Millôr produziu em torno de 15 mil máximas, aforismos, pensamentos, meditações etc. Nas páginas a seguir, confira uma série de frases, a partir da seleção feita por Augusto e das citações mais curtidas nas redes sociais e comentadas na internet, além de algumas ilustrações feitas à época de sua morte.
Homenageados pela FLIP

2003 Vinicius de Moraes (1913-1980)
2004 João Guimarães Rosa (1908-1967)
2005 Clarice Lispector (1920-1977)
2006 Jorge Amado (1912-2001)
2007 Nelson Rodrigues (1912-1980)
2008 Machado de Assis (1839-1908)
2009 Manuel Bandeira (1886-1968)
2010 Gilberto Freyre (1900-1987)
2011 Oswald de Andrade (1890-1954)
2012 Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
2013 Graciliano Ramos (1892-1953)