Entre traços, tirinhas e cartuns, Laerte traz humor afiado ao longo de 40 anos de carreira

Vanessa Gonçalves e Christh Lopes | 16/10/2014 15:15

Laerte Coutinho nasceu com veia artística. Desde criança usava o traço para se expressar e, mesmo tentando mudar os rumos profissionais estudando música e jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), acabou se rendendo ao próprio dom. Afinal, sua entrada na imprensa ocorreu por meio da ilustração e do constante passeio pelo terreno da sátira e o cômico para retratar o mundo ao seu redor.

Crédito:André Seiti
Mostra "Ocupação Laerte" fica em exposição em São Paulo até o dia 2 de novembro

Inspiração não faltou na carreira da cartunista, até porque “tinha algumas ambições na área de ilustração hiper-realista”. Suas referências passaram por Norman Rockwell, Luiz Gê, Ziraldo, Mauricio de Sousa, Walt Disney e, posteriormente, pelos artistas com quem trabalhou como Angeli, os irmãos Caruso, o pessoal do Pasquim, entre outros.

Eclética, em seus mais de 40 anos de carreira, Laerte atuou em publicações de diferentes gêneros como a independente revista Balão, o contestador O Pasquim, a esportiva Placar, além dos tradicionais Veja, Estadão, IstoÉ, Gazeta Mercantil e Folha de S.Paulo. Isso sem contar seus traços para campanhas do MDB, postais em solidariedade aos presos políticos nos anos 1970 e sua atuação sindical, como fundadora da Oboré nos anos 1980.

Crédito:Arquivo Pessoal

Nesse veículo surgiram personagens e tiras marcantes como “Piratas do Tietê”, “Overman”, “Los Três Amigos” – em parceria com Angeli, Glauco e Adão Iturrusgarai –, “Deus”, “Gato” e tantos outros. Recentemente, a cartunista passou a publicar charges opinativas no primeiro caderno da Folha. Embora ocupe um espaço importante no jornal, Laerte garante que não é uma atividade fácil e natural. “Me sinto esquisita, invadindo um território. Me sinto num país estrangeiro”.

Apesar deste sentimento, a artista destaca a relevância da charge na imprensa. “É uma produção autônoma dentro do jornalismo”. Por esta razão, não precisa necessariamente estar ligada a um texto complementar para ter destaque numa publicação, já que “pode ser lida sem que você leia o resto do jornal”.


As partes do todo

Há alguns anos, Laerte Coutinho disse à Superinteressante que tinha vergonha de quase toda sua produção. Em paz com sua arte, revela que não gosta “de ficar lambendo” muito o que faz depois do material publicado. “Algumas histórias e trabalhos prefiro guardar. Só não destruo porque acho que é um movimento meio psicopata”.

Crédito:Arquivo Pessoal

Este respeito ao próprio trabalho só não valeu para o acervo dos dez anos em que trabalhou na Gazeta Mercantil. “Botei fogo. Eu estava com muito ódio de ter trabalhado lá”, revela. A cartunista ainda lamenta o roubo, em 2012, do disco rígido com toda sua obra digitalizada e organizada. “Sequer sei o que perdi. Eu estou tentando recompor o HD com base nos discos que sobraram”.

Embora admita ter dificuldades em analisar sua obra, Laerte a resume em três fases: começo, meio e fim. “O começo marca o fim de uma experiência de amadorismo muito única e o alvorecer de possibilidades e coisas interessantes. Mas o que se passou entre 1970 e 2000? O que são esses trinta anos de trabalho, experiência, vida, militância, ativismo. Isso tudo é uma espécie de um grande meio, o miolo do sanduíche. Não é uma coisa só também, pois meu trabalho mudou bastante nesse decorrer”.

Crédito:Arquivo Pessoal

Para a artista, que declara estar vivendo a última fase de sua obra, ela representa uma ruptura, na qual questiona seus procedimentos profissionais. “É a fase onde eu dou por concluído determinados ciclos profissionais, gráficos, expressivos e também recupero alguns procedimentos da fase de juventude”.

Esse retorno de Saturno, com mudanças significantes nos meios de produção não representaram um cartão vermelho da cartunista para a tecnologia. Mesmo sem ter muita intimidade com as novas plataformas, Laerte enxerga nelas um mergulho na liberdade. “A possibilidade de ficar em casa trabalhando e mandar trabalhos pela internet é decisiva, mudou toda a minha vida.


Além disso, é bastante significativo do ponto de vista de autossuficiência, haja visto também que um monte de jovens artistas têm ao alcance do dedo a possibilidade de ser a própria vitrine e atingir tantos leitores quanto eu”, decreta.


Serviço:

“Ocupação Laerte”
Local: Itaú Cultural, em São Paulo (SP)
Quando: de 20/09 a 02/11 de 2014