Busca por diploma em jornalismo aumenta nos vestibulares apesar de cortes no mercado

Gabriela Ferigato e Lucas Carvalho | 19/01/2015 16:45
Poucas coisas são tão discutidas como o futuro do jornalismo. “O que será do impresso?”, “Como a mídia tradicional irá sobreviver diante das mudanças tecnológicas?”, “Qual o modelo de negócio ideal para o digital?”, “O repórter multitarefa é a saída para as novas demandas?”, “Como manter a isenção e a imparcialidade?”.

Parece não existir uma resposta pronta para todas essas e outras perguntas, mas a cada ano surgem milhares de novos aspirantes à profissão nos cerca de 370 cursos de graduação de jornalismo do Brasil, e que ajudarão a encontrar soluções para algumas dessas inquietações.

Crédito:freeimages
Estudantes não se intimidam com situação do mercado e procuram cada vez mais pelo curso de jornalismo 
Apesar da onda de demissões que atingiu grandes veículos de comunicação em 2014, o curso foi o sétimo mais procurado da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), entre as 111 opções oferecidas. São sessenta vagas para mais de 2 mil inscritos, ou seja, uma média de 36 candidatos/vaga. A graduação mais procurada, no caso medicina, tem cerca de 55 concorrentes por cada posição.

Já se passaram mais de cinco anos desde a decisão da queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, determinada em 2009 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com o professor Dennis de Oliveira, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), esse foi um fator que impactou a busca pelo curso – especificamente uma queda de 12%. Mas, desde então, a procura tem se mantido em um nível estável.

Ana Laura Carvalho, que acabou de concluir o primeiro ano na Universidade da Amazônia (Unama), conta que, ao optar pela carreira, teve que “aturar a opinião de muitos pessimistas”. “Eu já entrei consciente do cenário desagradável que o jornalismo estava inserido, tudo isso graças à ‘brilhante’ ideia da queda do diploma. Mas na faculdade encontrei pessoas otimistas com a profissão e com o seu futuro. Volto para casa motivada”.

Crédito:Sandra Codo/ IEA-USP
Dennis de Oliveira é professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)
Seja para ser o próximo Willian Bonner ou outro profissional de destaque na mídia, Oliveira acredita que o jornalismo ganhou um tom de glamour por causa da televisão e muitos o procuram na expectativa de ser âncora de telejornal e ganhar visibilidade. “A nossa preocupação é mostrar que essa é uma carreira mais complexa e que abarca diversos tipos de atividades, porque o mercado não se resume somente aos grandes meios de comunicação”, diz o professor da ECA-USP.

Muitas vezes essa perspectiva muda ao longo dos anos, como aconteceu com Wellington Victor Pereira Silva, que acabou de se formar pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Para ele, a primeira impressão em relação ao mercado era, de fato, a grande mídia. “Quando entrei não tinha noção dos vários campos de trabalho. Ao decorrer do curso fomos vendo que é muito mais amplo, e que não podemos nos limitar. Abriu minha mente para me interessar por outras áreas, inclusive a acadêmica”.

Perfil do estudante
Para Rodolfo Carlos Martino, coordenador do curso de jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo, o perfil do universitário mudou, principalmente por focar nas plataformas multimídias. “O estudante de hoje chega para uma profissão que faz parte do futuro. Ele vive em um mundo afogado por informações e, de alguma maneira, será o mediador dessas demandas. As grandes redações podem estar em crise, mas a mediação da informação não está”, afirma. Para 2015, a Metodista projeta um crescimento de 37% em relação ao número de matrículas.

Outro fator que mudou o perfil dos alunos, de acordo com professor Ayoub Hanna Ayoub, coordenador de jornalismo da UEL, foi a implantação, há uma década, do sistema de cotas. A UEL foi a quarta instituição pública a aderir a política no Brasil, destinando 40% das vagas para estudantes de escolas públicas e metade delas reservada exclusivamente para negros.

“O sistema mudou muito o perfil de nossos alunos e isso é uma avaliação empírica, não científica. Quando o curso chegou, há vinte anos, estava entre os três mais procurados da UEL e passou a ser uma graduação de melhor poder aquisitivo, de pessoas que fizeram cursinhos e bons colégios. É importante o ingresso desses alunos que não passaram por escolas privadas e caras, acho que melhorou bastante o nível de discussão”, avalia.

Para o coordenador, o fantasma das demissões não é nada recente. Em Londrina, por exemplo, o impacto está acontecendo há mais de dez anos, principalmente em relação à substituição de maiores salários por gente mais nova ganhando o piso. Segundo ele, o cenário não afeta o interesse na escolha pela graduação.

Crédito:Arquivo Pessoal
Rodolfo Carlos Martino
“O sujeito, ao prestar o vestibular, está bem naquela fase de escolher o que realmente gosta e não se vai ter emprego. Sempre lembramos que o mercado não está só nas grandes redações”, diz. Beatriz Moraes, estudante do segundo ano da Universidade Metodista de São Paulo, afirma que é natural se assustar com a onda de demissões, mas acredita que não seja um movimento somente do jornalismo.

“A Volkswagen demite em massa, várias empresas demitem em massa. Não é porque falta espaço para nós, e sim por falta de dinheiro. Meu pai sempre me apoiou em qualquer carreira que escolhesse e me disse uma vez ‘Quantos se formam em jornalismo e quantos são o Caco Barcellos?’. Não quero ser mais uma jornalista, na minha classe tem 84. Quero ir atrás e atingir meu objetivo, me aprimorar”, diz Beatriz.

As expectativas em relação à profissão sofrem altos e baixos ao longo do curso. Ao colocar tudo em uma balança, Lanna Santanna, estudante do quarto ano de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB), atualmente segue controlando a dualidade de sua decisão. Fica feliz quando exerce a profissão, conhecendo pessoas, histórias e escrevendo matérias, mas triste porque acredita que talvez seja uma carreira que se torne desvalorizada no futuro.

“Vejo vários colegas que, por necessidade ou escolha própria, têm mais de dois empregos. Considero que seja a precariedade do setor e falta de valorização para/com os profissionais em termos financeiros e de condição de trabalho. Espero futuramente estar mais positiva”, destaca Lanna.

Oferta e demanda
Comparação entre a relação candidato/vaga nas principais universidades de jornalismo do Brasil em 2013 e 2014:

Faculdade Cásper Líbero (São Paulo)
2013 - Diurno - Vagas: 100 | Candidato/vaga: 9,87
Noturno - Vagas: 100 | Candidato/vaga: 5
2014 - Diurno - Vagas: 100 | Candidato/vaga: 9,76
Noturno - Vagas: 100 | Candidato/vaga: 5,61

Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM - São Paulo)
2013/2014
Inscritos: 200 | Candidato/vaga: 4

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
2013 - Matutino - Vagas: 50 | Candidato/vaga: 7,16
Noturno - Vagas: 50 | Candidato/vaga: 3,62
2014 - Matutino - Vagas: 50 | Candidato/vaga: 6,72
Noturno - Vagas: 50 | Candidato/vaga: 2,86

Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
2013 - Inscritos: 916 | Vagas: 50 | Candidato/vaga: 18,32
2014 - Inscritos: 749 | Vagas: 50 | Candidato/vaga: 14,98

Universidade de Brasília (UnB)
2º vestibular de 2013
Inscritos: 750 | Vagas: 66 | Candidato/vaga: 11,36

2º vestibular de 2014
Inscritos: 784 | Vagas: 66 | Candidato/vaga: 11,88

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Edição SISU 2013 -1
Vespertino - Vagas: 80 | Inscritos: 4344 | Candidato/vaga: 54,30
Noturno - Vagas: 40 | Inscritos: 2190 | Candidato/vaga: 54,75

Edição SISU 2014 -1
Vespertino - Vagas: 80 | Inscritos: 4035 | Candidato/vaga: 50,44
Noturno - Vagas: 40 | Inscritos: 2176 | Candidato/vaga: 54,40