Jornalistas trazem novo olhar sobre o passado através de apuração de fatos históricos

Lucas Carvalho | 02/04/2015 14:15

Imagine um livro de História do Ensino Médio utilizado nas escolas brasileiras no ano 2065. As crianças e jovens do futuro fazem provas sobre a guerra ao Estado Islâmico, estudam personagens como Edward Snowden e apresentam seminários a respeito da revolução das mídias sociais. O que hoje é notícia, amanhã é história. E, não raro, vice-versa.


Ao longo dos séculos, jornalismo e história têm andado de mãos dadas. Essa relação, porém, nem sempre é de puro amor, mas permite que o público e a sociedade tenham sempre um olho no presente e outro no passado. E, dessa forma, preparar o terreno para o que vem a seguir. “Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”, dizia o músico Paulinho da Viola, na canção “Dança da Solidão”. É o que pensa a jornalista e escritora Regina Echeverria.


Crédito:Ana Carolina Fernandes/ Companhia das Letras
Mario Magalhães é autor da biografia do militante político Carlos Marighella

Autointitulada “uma biógrafa do Brasil”, a jornalista tem no currículo livros sobre Gonzaguinha e Luiz Gonzaga, Pierre Verger, José Sarney e, mais recentemente, sobre a Princesa Isabel. Para Regina, embarcar em uma reportagem sobre um período distante no tempo garante ao jornalista, também, a alcunha de “repórter do passado”. “É isso o que eu faço. É fascinante ler um livro de História feito por um jornalista porque ele tem uma linguagem mais popular. E, para fazer o livro da Princesa Isabel, eu tive que ler muita coisa chata...”

Opinião semelhante é a do escritor, jornalista e blogueiro Mário Magalhães. É dele a autoria do premiado livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”. “Mesmo se jogarmos luzes sobre o presente e o futuro, nós bebemos nas fontes do passado. Como especular se o dólar vai subir sem estudar o comportamento histórico do câmbio, em particular nos tempos mais recentes? Ao falar do hoje e do amanhã, nós sempre, de alguma maneira, narramos o ontem, que pode ser também anteontem e muito antes de anteontem. Eis o que somos: arqueólogos da informação e da existência”, opina o jornalista.


Para Lucas Figueiredo – responsável por obras como “Boa Ventura!”, que narra o ciclo do ouro no Brasil colonial – não é apenas comum ver jornalistas que escrevem sobre o passado, como é possível dizer também que, no Brasil, esses profissionais têm tradição na área. “Veja, por exemplo, que todo ano, em praticamente todos os grandes prêmios de jornalismo, há sempre um vencedor com um ‘furo’ sobre a ditadura brasileira. Estamos falando de fatos ocorridos há pelo menos 40 anos, quando não 50!”, afirma o jornalista.


E não é exagero. Os últimos quatro vencedores do Prêmio Jabuti de livro de não ficção foram obras históricas, relatos dos anos 1990 e até crônicas sobre o início do século XIX. Todos eles foram sucessos de vendas e escritos por jornalistas, como Audálio Dantas, Miriam Leitão e Laurentino Gomes. Lira Neto, autor de uma trilogia de livros sobre o ex-presidente da República Getúlio Vargas, é um desses premiados. Para ele, o jornalista é “o historiador do cotidiano”. “É aquela pessoa que vivencia e experimenta a história enquanto ela está se desenrolando, enquanto ela está acontecendo. Às vezes, a história recorre a jornais de época, à imprensa, para tentar compreender o passado. É uma via de mão dupla.”


Método

Crédito:xx
Regina Echeverria é autora da mais recente biografia da princesa Isabel

Passar horas em bibliotecas, lendo e relendo páginas antigas e registros históricos delicados, é parte do trabalho de um jornalista que escreve sobre o passado. Regina Echeverria recorda, por exemplo, os obstáculos superados na produção de “A História da Princesa Isabel”. “Tudo é dificultado para o pesquisador. No Museu Imperial, eles têm mais de 3 mil cartas da Princesa, todas escritas à mão, a maioria não foi digitalizada. Então eu tive que ter alguém lá copiando essas cartas, anotando – porque não pode tirar xerox, nem nada – uma a uma. Tudo dificulta a sua vida.”

Além disso, a jornalista destaca o cuidado para se manter fiel apenas aos fatos, e não às versões dos fatos. “Li todas as biografias que foram feitas sobre ela [Princesa Isabel], umas oito. Cada uma tem uma visão diferente sobre alguma coisa”, comenta. Mas para Mário Magalhães é nesse ponto em que o autor deve fazer uso da habilidade jornalística de apurar, investigar e manter a imparcialidade.


“Nosso esforço é para que a nossa versão seja a mais próxima possível do fato. Não se alcança tal objetivo sem suor, método e escrúpulos. [...] No caso de um personagem como Marighella, a maior dificuldade foi a combinação de dois fatores: certa historiografia tentou eliminá-lo da memória nacional; e, por questão de sobrevivência, ele apagou suas pegadas. Mas repórter gosta de personagens assim, misteriosos, cujos caminhos têm que ser reconstituídos com documentos e depoimentos. Os registros históricos, como reportagens e papéis oficiais ou não, devem merecer sempre o ceticismo que o jornalismo precisa manter diante de qualquer fonte.”


No caso de uma biografia sobre um personagem que já morreu, a distância entre o jornalista e a realidade de seu biografado precisa ser preenchida com outros tipos de fontes que não o próprio sujeito. Mas como é o trabalho de “entrevistar” documentos históricos? Para Lira Neto, mesmo não estando em contato com o protagonista de sua história, é possível construir um retrato fiel tendo acesso ao contexto em que ele vivia.


“Para fazer uma biografia, eu entrevisto pessoas que de certa forma conviveram diretamente ou que refletiram sobre o universo adjacente ao biografado. E, ao mesmo tempo, como todo jornalista, consulto documentos que sustentem minha apuração. Mas pesquiso todo tipo de fonte para compreender a cultura da época, a economia da época, a sociedade da época... Tudo isso são consideradas fontes auxiliares e que servem ao jornalista nesta busca, nessa arqueologia do passado.”


Passado e presente

Crédito: Renato Parada
Lira Neto é biógrafo do ex-presidente Getúlio Vargas

Um consenso entre os autores é que a internet ajuda, e muito, o trabalho de quem se aventura pela História. “Imagina que quando eu comecei a trabalhar em jornal não existia nem computador! Imagina ter que reescrever todos os capítulos do seu livro por causa de um erro, batendo na máquina de escrever”, diverte-se Regina.

Lucas Figueiredo, por exemplo, está produzindo uma biografia sobre a figura histórica brasileira de Tiradentes. Ele conta que, graças à internet, tem a chance de acessar uma série de documentos do século XVIII mantidos em arquivos de Portugal, Itália e Estados Unidos. Tudo sem precisar sair de casa. Mas criar dependência das novas tecnologias, por outro lado, não é o caminho ideal.


Lúcio de Castro, que também é formado em História, afirma que nada supera o trabalho “manual” de um repórter: ir a campo e pôr a mão na massa. “A tecnologia, sem dúvida, ajuda muito, mas não anda sozinha. Quem ficar apenas nela vai fazer um trabalho pela metade.” “Jornalismo e História são irmãos de sangue. A diferença que se fazia entre passado e presente como objeto de um e outro não é mais tão verdadeira. O que muda ainda é a forma e o tratamento que será dado por um e por outro”, afirma Lúcio.


Lira Neto concorda: “Da mesma forma que os jornalistas estão escrevendo a história cotidianamente, eles também são fontes históricas imprescindíveis para os historiadores de amanhã”. Se até mesmo a história de ontem pode ser a notícia de hoje, e vice-versa, vale parafrasear novamente Paulinho da Viola: “A toda hora rola uma história, que é preciso estar atento. A todo instante rola um movimento que muda o rumo dos ventos”.