A influência das revistas estrangeiras

A influência das revistas estrangeiras

Atualizado em 20/10/2008 às 17:10, por Nelson Varón Cadena.

Que publicações estrangeiras (revistas e jornais) os brasileiros liam na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX? Se conseguimos responder a esta pergunta estaremos sinalizando com as influências externas em nossa imprensa. Não foi apenas neste lado dos trópicos que colhemos subsídios para desenvolver um estilo, inicialmente opinativo engajado, mais tarde o opinativo rebuscado, quase barroco, e finalmente informativo com abrangência para a reportagem.

Nessa transição passamos também por influências de imagem e identidade visual dos veículos: a caminhada entre as vinhetas confeccionadas em xilogravura, passando pelo desenho gorduroso na pedra, até o domínio das técnicas fotográficas e a sua impressão com nitidez, através do popular clichê. Aprendemos com os outros a diagramar, e no caso específico das revistas, ontem e sempre, inspiramo-nos em magazines europeus ou americanos.

Catálogos e sebos
O fato é que ninguém se deu ao trabalho ainda de mapear essas influências, um bom tema para pesquisa, fica aqui a minha sugestão. A começar, identificando essas leituras privilegiadas, publicações que circulavam entre nós, acessíveis aos profissionais da área, mas também ao leitor bem instruído. Publicações disponíveis nas livrarias e que numa sala de visitas faziam a diferencia. Famílias que tinham recursos adquiriam revistas importadas, de informação geral, mas também segmentadas. E naquele tempo revista não era um item descartável, guardavam-se os exemplares do mesmo jeito que se colecionavam cartões-postais.

Desenvolvi uma metodologia para identificar as publicações estrangeiras que circulavam entre nós, a mídia que os nossos visavôs e os que os antecederam consumiam. É simples. Basta consultar os catálogos das bibliotecas públicas das grandes cidades para se ter uma noção de qualidade e diversidade, mas para se aferir a quantidade e penetração desses veículos só há um caminho: os sebos. É nessas livrarias especializadas em livros e revistas antigos que de fato podemos rastrear os títulos estrangeiros mais em evidência.

E nesse quesito nenhum título supera a revista francesa "L' Ilustration" que se encontra com facilidade, em particular as coleções entre 1890 e 1920. Foi no "L' Ilustration que o Barão de Tefé foi buscar referências gráficas e de conteúdo em 1901 para fundar a Revista da Semana.

As revistas francesas
Os brasileiros cultos liam francês e daí o sucesso das revistas parisienses entre nós. Em especial " L' Ilustration" e "Le Petit Journal" no início do século e a partir dos anos 20 "Lectures por Tous", "Revue des Modes" e a de maior penetração, a "Je Sais Tout". As três últimas inspiraram revistas brasileiras do mesmo nome: "Leituras para Todos" "Revista da Moda" e "Eu Sei Tudo", mediante um sistema de franquia semelhante ao de "Seleções".

Os paulistanos liam "Il Sécolo XX" e "La Lettura" revistas italianas que ainda hoje se encontram com facilidade em alguns sebos da cidade. Os baianos preferiam a revista espanhola "A Vida Galante". Nas grandes cidades circulava a inglesa "The Spere", a revista cuja capa era toda anúncios e "The Ilustration", do gênero da revista francesa do mesmo nome aqui referida. No Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia a "Revista Ilustrada" de Lisboa, inspiradora de "A Ilustração Brasileira", também tinha o seu nicho.

Em inglês
A partir da década de 20/30 as revistas em idioma inglês ganham mercado Primeiro o Time que inspirou Chateaubriand a fundar "O Cruzeiro". Imitava-lhe as capas, mas não o conteúdo. Mais tarde o "National Geographic" e o "Reader's Digest" que a partir de 1942 passou a ser editada em idioma português. Nos anos 50 os brasileiros liam a revista "Life" que inspirou "Manchete"; as mulheres recortavam os moldes da revista alemã "Burda", publicação obrigatória nas salas ou cantos de costura das residências tradicionais e outras nem tanto. Nos anos 60 líamos "Vogue" a revista de moda e estilo mais influente do mundo, o título licenciado para a Carta Editorial no Brasil, muitos anos depois.

Mais tarde descobrimos as revistas eróticas. "Play Boy" e "Elle" fizeram escola, eram adquiridas em pontos de venda sofisticados e custavam os olhos da cara.. Mas, ambos os títulos foram licenciados por editoras brasileiras. O primeiro deles popularizado, ainda hoje um dos títulos de maior circulação da Editora Abril.

No lixo
Mas, retornando no tempo, me intriga a quase inexistência nos sebos paulistanos de três publicações que sabemos circulavam bem nas colônias estrangeiras: o "Fanfulha", "Nippack Shimbum" e o "Magiar Yjag". O que aconteceu? Publicações em papel jornal, pelo visto, não eram guardadas e o seu destino, provavelmente, tenha sido o lixo.