ARTIGO | Transmissões esportivas: direitos para quem faz direito

ARTIGO | Transmissões esportivas: direitos para quem faz direito

Atualizado em 19/01/2006 às 11:01, por por Franklin Berwig*.

ARTIGO | Transmissões esportivas: direitos para quem faz direito


faberwig@yahoo.com.br As emissoras que detêm os direitos sobre a transmissão de competições esportivas nem sempre merecem a dádiva que a lei do mercado as concede. A Copa do Mundo de futebol, no meio do ano, será uma boa oportunidade para comprovar isso. A Rede Globo, mais uma vez, vai atacar em dose dupla - tripla, se considerado o canal Sportv 2, que surgiu para garantir o "ao vivo" de toda carga de eventos sobre os quais as Organizações têm direito.

Uma pena que tamanha estrutura não renda aos espectadores televisionamentos de qualidade. Já faz tempo que o melhor jornalismo esportivo do país está na ESPN Brasil. Além da gama de programas, entre noticiários e especiais, suas transmissões são capazes de conjugar um narrador de bom vocabulário e postura, um comentarista com conhecimento não apenas suposto e repórteres ágeis e inteligentes, tanto que rende, constantemente, profissionais para a rival Sportv.

Isso torna mirabolâncias técnicas, como câmeras voadoras, efetivamente, desnecessárias. Não que a Globo não tenha bons profissionais. Seu maior problema é justamente não poder escalar Cléber Machado e Falcão em todos os jogos. Assim, vai para sua décima Copa com os estrelismos e desserviços futebolísticos-lingüísticos de sempre.

A Record, o outro canal aberto que transmite eventos esportivos de bom nível, estava progredindo, mas contratou Neto, que até na RedeTV! já despertava suspeitas sobre sua serventia. Falando nela, a emissora mais atrapalhada dos esportes (perdeu os direitos sobre a excelente Liga dos Campeões da Europa por descumprir acordos) parece ter o dom de contratar comentaristas meros franco-atiradores. Sua equipe ainda comete o gol contra jornalístico de viajar incompleta aos locais das partidas nacionais que exibe.

Na Bandeirantes, que já foi o canal dos esportes pela quantidade e qualidade dos eventos, o DNA esportivo ainda persiste. Mesmo partidas insossas de pequenas equipes espanholas e italianas ganham alguma cor na emissora (tomara que a jovem BandSports siga esse caminho). O mesmo não se pode dizer da Sportv, que é incapaz de manter um nível de profissionais como o de sua concorrente de canal fechado. É compreensível, se verificada a quantidade deles. E isso fica mais evidente no Premiere, mantido pela Sportv, no qual o espectador paga pelo oposto: uma série de bons jogos com transmissões deficientes.

Monopólio
A ESPN Brasil, que estreitou recentemente a parceria com sua mãe internacional, tem, hoje, também produtos de qualidade, como as ligas inglesa e espanhola. No entanto, em âmbito doméstico, só tem bala na agulha para exibir torneios do nível da Copa São Paulo de futebol júnior. Mas isso não é problema para quem mostrou saber como se faz jornalismo esportivo. Com o slogan "Informação é o nosso esporte", a emissora assume um estilo de trabalho. Na Copa de 2002, chegou a fazer programas especiais após cada partida da Seleção Brasileira, que apenas a Globo exibiu. Foi, espertamente, uma atitude semelhante a que outros canais já fizeram, ao anunciarem programas para "depois da novela das oito".

Não há, pois, como competir com a Globo e suas transmissões exclusivas. É comum ela tentar, inclusive, proibir a entrada de equipes de outras emissoras em jogos sobre os quais ela detém os direitos. O fato mostra que o canal prefere paliativos, como impedir concorrentes de exibir gols antes dele, a melhorar equipe e cobertura. Deveria haver um critério jornalístico na venda de direitos sobre a transmissão de eventos esportivos. Ou seja: dar direito somente a quem faz o trabalho direito.

A idéia pode parecer utópica num dos campos mais permeados pelos conceitos mercadológicos, mas tem seu fundo de razão. Afinal, clubes e federações não devem gostar de ver seus jogos transmitidos por emissoras e profissionais que não valorizam o potencial do produto. Felizmente, algumas emissoras compreendem que as transmissões são apenas parte da cobertura jornalística. Uma parte importantíssima, claro, mas que corresponde a uma fatia pequena da programação se comparada à necessária e estimulante repercussão.

Melhor seria se um mesmo canal pudesse transmitir e repercutir com qualidade. E isso não é utópico. Este ano, a ESPN Brasil vai transmitir a Copa. Que sirva para o pessoal aprender alguma coisa.

*Franklin Berwig é jornalista e maníaco por esporte na TV