Pensata: mídia pode influenciar opinião dos telespectadores - por Suzy Zveibil Cortoni*

Pensata: mídia pode influenciar opinião dos telespectadores - por Suzy Zveibil Cortoni*

Atualizado em 09/11/2005 às 16:11, por *Por Suzy Zveibil Cortoni.

Pensata: mídia pode influenciar opinião dos telespectadores - por Suzy Zveibil Cortoni*


Pesquisa revela que a mídia pode ter papel fundamental na formação da opinião e nas atitudes dos cidadãos


A percepção negativa dos cidadãos em relação ao meio político é um fato há muito tempo. Em períodos pré-eleitorais criam expectativas favoráveis de mudanças e novos ventos, mas ao longo do tempo, a velha sensação de que seu voto foi em vão retoma seu lugar. Porém, nada é mais frustrante do que a constatação da corrupção de seus representantes e do governo de forma geral. O atual retrato político do país desperta nos cidadãos a dualidade: "posso mudar isso tudo" (indignação) x "não dá para acreditar em mais nada" (desânimo).

Um estudo sobre a percepção dos telespectadores frente ao escândalo político na prefeitura de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, em 2002, no qual foram desviados R$ 52 milhões, foi um pequeno olhar para o futuro. Na pesquisa qualitativa, realizada pela ComSenso - Agência de Estudos do Comportamento e a empresa FPJ Fato, avaliou a opinião de homens e mulheres de 25 a 55 anos, de classe sócio-econômica B e C que acompanham diariamente os telejornais noturnos.

Embora tenha sido realizado há três anos e não tenha ligação com os escândalos atuais, as reações das pessoas continuam as mesmas. No estudo percebemos que a mídia, em especial a informação jornalística da televisão, tem papel fundamental na formação de opinião e nas atitudes dos cidadãos, e em especial do eleitor frente a candidatos e partidos.

A população utiliza a mídia, e principalmente a TV, para saber o que está acontecendo no país e formar sua opinião sobre a situação política vigente. A primeira reação da grande maioria ao se deparar com o noticiário é a indignação pelo fato. Sentimentos como repúdio, raiva e revolta se voltam contra os envolvidos. Depois de chocados, mas não surpresos, eles se mostram céticos e envergonhados em relação aos políticos, concluindo que o fato não é isolado, mas algo que sempre acontece. Os eleitores enxergam a corrupção como parte da política brasileira, que atinge até mesmo os políticos com imagem 'séria' e 'honesta'. Ou seja, os sentimentos de descrença são ampliados para todos os políticos e governantes, pois as pessoas acreditam que os cargos públicos são usados apenas para atender interesses pessoais.

A conclusão do estudo aponta a forma como os cidadãos brasileiros lidam com a corrupção: é uma notícia que choca, mas não é uma notícia que surpreende. Os cargos públicos são ambicionados para obtenção de benefícios pessoais e não para o bem público ou da população. Mesmo os políticos com alguma credibilidade ficam absorvidos e emaranhados por uma rede de interesses próprios, a ponto de não favorecerem a explicitação dos fatos corruptos de seus parceiros políticos.

A decepção nas escolhas deixa os cidadãos 'órfãos' e com sentimento de abandono e traição. Passam então, a desacreditar nas instituições e nas autoridades, uma situação perigosa para a democracia. Com os atuais escândalos políticos as próximas eleições serão influenciadas, seja pela cautela com que as pessoas irão escolher seus candidatos ou pelo radicalismo do descrédito total e a tendência de, por exemplo, anular votos.

Outras conclusões da pesquisa indicam a importância da mídia para favorecer a percepção da população diante de uma dimensão geralmente pouco transparente: A cumplicidade entre os políticos para neutralizar as informações sobre corrupção; governos e autoridades em condições de agir sobre este tipo de mazela só o fazem a partir de denúncias na mídia, e em especial na televisão; a notícia jornalística tem forte conteúdo informativo, com credibilidade e capacidade de "abrir a cabeça do povo". E, finalmente, o cidadão percebe que as informações reveladas pela mídia não costumam ser acessíveis pelos mecanismos regulares das instâncias políticas e, muito menos, disponibilizadas diretamente por instituições e autoridades que teriam legitimidade em investigar e denunciar, ambos bloqueados por uma rede perversa de imobilismo e ocultação deliberada.


* Suzy Zveibil Cortoni é psicóloga e diretora da ComSenso Agência de Estudos do Comportamento