Clóvis Rossi exclusivo: "José Dirceu revelou um déficit grande de caráter"

Clóvis Rossi exclusivo: "José Dirceu revelou um déficit grande de caráter"

Atualizado em 06/12/2004 às 15:12, por Thaís Naldoni.

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O colunista do jornal Folha de S.Paulo, Clóvis Rossi, em entrevista exclusiva à Revista Imprensa, faz duras críticas ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu e comenta as declarações do presidente Lula em relação ao Fórum Social Mundial, de Porto Alegre. O jornalista fala, ainda, sobre sua longa carreira de correspondente internacional

IMPRENSA – Após dois anos do governo Lula, eles têm se mostrado acessíveis como fonte ou são difíceis com os jornalistas?

Clóvis – Nestes dois anos, eu viajei tanto, cobri tantas coisas fora, embora quase todas vinculadas nas relações do Brasil com o mundo, que minha busca de contato com o governo Lula foi muito pouca para eu te dar uma resposta que valha a pena. Com os ministérios que lidam com estas questões externas, o Itamaraty, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Ministério da Agricultura e quem mais entrou neste circuito, eu não tive nenhuma dificuldade, tenho a melhor relação com todos eles.

Agora, o governo em si, o governo voltado para o Brasil, os Zé Dirceus da vida eu nem tentei. Na verdade, o Zé Dirceu eu até tentei antes da posse, mas acho que ele revelou um déficit grave de caráter e eu não voltei a tentar.

Quando ele estava na oposição e queria falar alguma coisa, me procurava. Depois que ganharam a eleição e eu, naturalmente o procurei, ele jamais deu retorno. Quem tem uma cara no governo e uma outra na oposição, revela uma fraqueza de caráter muito grande e eu desisti e não interessa mais falar com quem tem esse tipo de fraqueza.

IMPRENSA – O presidente Lula declarou que o Fórum Social Mundial é uma feira ideológica e isso causou reações de diversos setores. Como avalia a importância do Fórum e como você acha que ele vai acontecer após a derrota do PT em Porto Alegre?

Clóvis – Quanto à derrota do PT eu não sei, não estou acompanhando a reação, acho que é uma bobagem mudar o Fórum de local e etc. porque não é um Fórum do PT, é da sociedade civil, entidades não-governamentais e tem uma rica vida própria. Tudo bem que Porto Alegre foi escolhida por ser uma Prefeitura do PT e pelo velho PT estar envolvido, mas hoje é o PT é um outro partido que nada tem a ver com anterior.

Já a idéia de ser uma feira ideológica, que o Lula usou de maneira pejorativa, eu acho que ótimo que seja assim, muito melhor do que esta ditadura do pensamento único, este pensamento neoliberal e conservador. Esta é a riqueza do fórum, ser diversificado. O Lula é que é um babaca de achar que se deve tirar uma conclusão prática do evento, até pode se tirar alguma conclusão, mas o aspecto de feira é um fator rico do fórum.

IMPRENSA – É possível traçar um paralelo entre os fóruns de Davos e Porto Alegre?

Clóvis – De alguma forma, Davos também é uma feira ideológica. Embora muito mais restrita é também uma feira. Arafat era um freqüentador assíduo da feira, até a crise se agravar em Israel, o Mandela cansou de ir, foram cubanos, o líder partido comunista soviético.

O predomínio de homens de negócios, em relação a Porto Alegre é uma coisa esmagadora. Em Davos, de mil participantes, 800 são homens de negócios. Não obstante, vão sindicalistas, representantes de organizações não-governamentais, aparece de tudo. Também é uma feira ideológica.

É evidente que o peso é desproporcional. Em Porto Alegre, o peso é da esquerda e em Davos, da direita. Inclusive tem discussões que pouco aparecem ou não aparecem nos jornais, por falta de tempo, falta de pessoas cobrindo, que escapam completamente da discussão político-ideológica, como líderes religiosos, professores, entre outros.

A ilusão que a esquerda tem de Davos, é que lá é decidido o destino do mundo, o que é uma bobagem, não se decide nada. Lá se discute o mundo, mas não se decide nada.

IMPRENSA – Como a Folha é recebida hoje em eventos internacionais, como em Davos? Como você é recebido como correspondente da Folha?

Clóvis – A Folha não, porque ninguém nem sabe pronunciar. Em espanhol, Folha é uma expressão horrível. Folha de S. Paulo em francês e inglês, ninguém sabe o que é, tirando, evidentemente, três ou quatro pessoas que lidam com Brasil.

Eu, pelo fato de estar sempre cobrindo os eventos, em Davos, por exemplo, eu vou há treze, quatorze anos e aí sou parte do mobiliário, então sou tratado bem. Não tem banda me esperando no aeroporto, mas sou tratado como um deles.

Tenho certas vantagens. Tenho credencial de participante, não de jornalista, tenho direito a participar, pagando, dos almoços e jantares que são uma constante do Fórum, onde rola muita coisa interessante do ponto-de-vista noticioso e o jornalistas com credencial normal não têm acesso.

E as reuniões internacionais, que são as coisas que eu tenho feito com mais freqüência, que são as negociações comerciais internacionais, também passei a fazer parte da paisagem pelo tanto que cobri.

A pessoa que era porta-voz, até dia 1º de novembro, da Comissão Européia para Comércio, me conhece pessoalmente, conversamos, almoçamos juntos, então, sou tratado como é tratado um jornalista europeu que cobre esta área. Ela sabe quem eu sou, não preciso me apresentar. Quando me levanto para fazer perguntas sou chamado pelo nome. Os próprios negociadores americanos e europeus sabem quem eu sou.

Mas não acho que seja porque eles leram o que escrevi e me respeitem por isso. Eles sabem que estou lá o tempo todo, faço perguntas, me apresento, porque esta é a praxe. Faço isso com regularidade, várias vezes, durante vários anos, então eles acabam me conhecendo e me tratam como se eu fosse parte da paisagem. Acho que é promoção por antiguidade e não por mérito. E isso é ruim, porque muda o porta-voz, você tem que começar tudo de novo.

IMPRENSA – Você tem idéia da milhagem que você acumulou neste ano?

Clóvis – Certamente é muita coisa, mas eu nunca faço estas coisas. Mas, eu voei menos este ano porque passei quatro meses na Europa, desenvolvendo um trabalho e, quando viajava, usava trem. O que posso dizer, tranqüilamente, é que estas milhagens acumuladas são suficientes para levar minha esposa para viajar para Europa.

IMPRENSA – Qual é sua relação com a redação? Quem elabora suas pautas e define os destinos de suas viagens?

Clóvis – Essa é uma via de mão dupla. Às vezes, eu sugiro uma cobertura, às vezes eles me enviam. Por exemplo, a eleição americana eu não tinha nenhuma pretensão de cobrir, de repente me ligaram. Eu estava em Lisboa, cobrindo a reunião da União Européia com o Mercosul, que foi pauta minha, aí perguntaram se eu queria ir para os Estados Unidos e eu fui. As viagens são condicionadas a eventos: uma reunião internacional, uma crise, um golpe de Estado, uma guerra, por exemplo.

IMPRENSA – Viajar tanto atrapalha ou já atrapalhou sua vida pessoal?

Clóvis - Atrapalha. Minha esposa reclama muito, cada vez mais. Com o tempo vai cansando mais. Conforme passa o tempo, você começa a se irritar com a complicação que é viajar de avião, todos os procedimentos do aeroporto, as filas, para tudo tem fila.

Na Europa em geral, quando você chega do Brasil, as filas do controle de passaporte são muito demoradas, às vezes demora mais de hora.

Nos Estados Unidos é um horror mesmo. Esses dias, cheguei em Miami, foi uma hora e meia de espera na fila do controle de passaporte, com todos os procedimentos de segurança. Para viajar dos EUA para algum lugar e mesmo viagens dentro do país, também há uma vistoria de segurança imensa, você tem que tirar tudo, cinto, sapato, casaco, tirar o computador da mala, abrir para mostrar se computador mesmo, sentar para que eles possam passar o detector de metais nas pernas, então, cansa, demora.

Esse tipo de coisa começa a irritar, porque tem toda uma etapa antes do vôo propriamente dito, que é muito chata. A vida pessoal fica necessariamente em segundo plano, isso qualquer jornalista, não tem horário, não tem dia.

IMPRENSA – E os prós destas viagens? Muitos estudantes passam a faculdade e terminam sonhando conhecer o mundo como correspondentes...

Clóvis – É legal que os estudantes pensem nas coisas boas de ser correspondente. Eu acho que ser correspondente ou enviado especial é a melhor função dentro da profissão. Quando você trabalha no Brasil, para um jornal brasileiro, você é condicionado, obrigado a ver só as árvores e não o bosque inteiro.

Evidentemente, se você está olhando a política brasileira, o jornal tem uma equipe para olhar a economia, outra equipe para olhar o lado cultural, outra para o esporte, outra para o cotidiano. Então, há a floresta inteira e tem várias pessoas olhando e você é obrigado a olhar só um pedaço, mesmo porque não seria humanamente possível olhar para todo o bosque.

Quando você está no exterior, acontece o contrário, você está sozinho. E aí, você é obrigado a tentar olhar o bosque inteiro, entender um país por todos os seus lados: seu cinema, seu teatro, sua música, sua gente, seus local, ou seja, uma visão mais abrangente. Por isso acho que é muito mais divertido, muito mais rico do que olhar só um aspecto de uma determinada realidade.

Só que o número de pessoas que consegue fazer isso, viajar, ser correspondente, não chega a ser 1% dos que se formam em cada ano na profissão.

IMPRENSA – Em suas viagens, dá tempo para aproveitar o local, ou o padrão é aeroporto/hotel/pauta?

Clóvis – Ultimamente dá porque eu tenho procurado chegar um pouco antes ou ir embora um pouco depois de terminar a tarefa propriamente dita, por minha conta, para conhecer lugares que eu não conheço ou então aproveitar para tirar umas férias e fico na Europa principalmente, porque eu gosto muito mais da Europa do que dos EUA. Mas, no começo não.

Eu me lembro que uma vez eu estava em Portugal, cobrindo ainda todos os desdobramentos da Revolução dos Cravos, há 30 anos, eu tinha ido fazer uma entrevista e desci uma rua, relativamente pacata, com pouco movimento, fui descendo até a avenida para pegar um táxi e trombei de cara com o Mosteiro dos Jerónimos, que é um monumento extraordinário, aí você vai porque não dá para não parar.

Mas estas visitas são casuais. Paris, por exemplo, eu já fui diversas vezes, mas minha esposa conhece mais Paris do que eu, porque quando ela vai comigo, eu fico trabalhando e ela vai conhecer a cidade. Agora, já conheço mais porque já fui de férias, mas nas primeiras dez viagens, nem sabia dizer se estava na margem esquerda ou direita do Rio Sena.

IMPRENSA – Você ainda conserva a mesma vontade, a mesma empolgação para o seu trabalho após tantos anos?

Clóvis – Nos primeiros anos, a viagem em si, era apenas um meio de transporte para fazer a tarefa. Mas, com o tempo, e todas aquelas coisas que eu disse sobre as filas e tudo mais, vai cansando e você gostaria de pular essa etapa, o que é impossível.

Você vai cobrir, por exemplo, a morte do Arafat, que eu não cobri porque estava nas eleições americanas, não tem como você escapar do aeroporto, das filas e isso irrita e a vontade diminui, não chega a acabar, mas diminui, vai saturando.

Com a idade, isso é fatal. Você precisa de mais tempo para se adaptar o fuso horário, clima, comida. Antes, eu viajava a noite inteira, chegava e ia trabalhar direto. Hoje não, tenho que ir um dia antes do evento, para me adaptar.

IMPRENSA – Alguma viagem em especial? Alguma lembrança boa de todas essas viagens?

Clóvis – Gostei muito do período em que fui correspondente em Buenos Aires. Estamos falando de era pré-internet e foi a primeira vez em que havia retorno do leitor. Os argentinos que estavam exilados no Brasil me deram muito retorno, foi a primeira vez em que eu me senti útil. Senti que a profissão tinha utilidade para um grupo de pessoas, pequeno ou não, mas tinha utilidade. Me senti necessário para este grupo de pessoas.

O retorno do leitor é muito pequeno. A Folha publica aos domingos o número de cartas recebidas. São 700 ou 800. Para um jornal que tira 400 mil exemplares, essa quantidade é muito pequena. Quase não há interatividade, é muito solitário. E o tipo de retorno que eu recebi dá uma sensação de uma certa utilidade social, coisa que você sempre duvida quando não há este retorno.