De transacional para emocional, por Lúcio Mesquita

Amigos recordam os momentos vividos e celebram a vida de Sinval de Itacarambi Leão, um ano após seu falecimento. (23/02/1943 – 05/08/2024)

Atualizado em 04/08/2025 às 17:08, por Lucio Mesquita.

Dois homens executivos posando para foto, no fundo um banner de fundo branco com logo dos patrocinadores

Sinval e Lucio Mesquita no Mídia.JOR 2019, realizado na Unibes Cultural, com o tema "- A Inteligência Artificial no Jornalismo"


Antes de mais nada, tenho uma confissão a fazer: meu contato inicial com o Sinval foi bem transacional, mesmo que sempre cortês e profissional.

Claro, já conhecia a Revista IMPRENSA desde meus tempos de curso de jornalismo na Cásper Líbero na segunda metade da década de 80, que também coincidiu com meu início de carreira.

Mas o Sinval e as pessoas que tanto escreviam ou apareciam na revista eram nomes conhecidos, mas claramente longe do meu alcance.

Afinal, na época eu nem podia falar de janela de profissão, pois meu tempo no jornalismo refletia, no máximo, uma daquelas escotilhas bem pequenas de barcos igualmente pequenos.

O contato com ele só veio mesmo anos depois, quando já tinha mudado para Londres e iniciado minha carreira na BBC Brasil, do Serviço Mundial da BBC. Era porque ele estava nos convidando para participar de um dos eventos regulares da IMPRENSA.

Aceitei o convite porque achava que seria bom para o público do evento e para a própria BBC, na época buscando estar mais presente no universo jornalístico do Brasil.

Parece que meu envolvimento foi pelo menos razoável porque, depois do primeiro, seguiram-se outros convites.

Mas o que também seguiu foi uma gradual, mas clara mudança de nosso relacionamento – do transacional pelos convites para participar de eventos, fomos para o mais emocional, com as ótimas e sempre cultíssimas conversas, que quem conviveu com o Sinval também conheceu muito bem.

Com o conhecimento dele, vinha também uma vida muito vivida: seminário, perseguição (e prisão) na ditadura, carreira na Globo e, depois, a criação da pioneira Revista IMPRENSA.

E continuamos conversando sempre que possível... talvez ajudados por nossas raízes mineiras que inevitavelmente levavam a longas prosas que podiam ir de cachaça e vinho a mitologia grega e a nobreza britânica.

Lucio Mesquita

Numa dessas conversas, quando tinha acabado de sair da BBC, após 25 anos de carreira lá, e agora trabalhando como consultor para empresas de comunicação, veio o convite para ser o curador do Mídia.JOR , a conferência anual criada pela IMPRENSA para investigar, entender e debater os principais tópicos da indústria.

Foi um privilégio – não só para poder continuar trabalhando com o Sinval (e a filha, Alexandra, que com eficiência e sensibilidade criou muito, fez com que as coisas acontecessem e nos mantinha nos trilhos para não nos perdermos nos causos de nossas conversas), mas também para, como ele e todos que contribuíram e contribuem para a IMPRENSA, contribuir para o sucesso e história do jornalismo brasileiro.

Foi também divertido, especialmente quando ainda fomos capazes realizar o evento de forma presencial, antes da pandemia; e desafiador, quando tivemos que achar formas alternativas e criativas para continuar com o evento remotamente.

Apesar de uma diferença de idade de mais de 30 anos, talvez o que nos tenha unido foi a curiosidade por tudo e todos que, acho, compartilhamos enquanto trabalhamos juntos.

E, para mim, a curiosidade e as indagações constantes foram os elementos fundamentais para a carreira bem-sucedida do Sinval, e o fato de ter-se mantido atual e relevante até seus últimos dias.

Uma vez um jornalista da Economist me disse que uma das instruções que davam para os focas que lá chegavam era que deveriam escrever como se estivessem reportando para uma criança curiosa de 12 anos. Ou seja, de forma inteligente, clara e reveladora, mas sem enrolação, paternalismo e verborragia.

Neste sentido, o Sinval parou nos 12 anos (ainda bem!) se mantendo curioso, inteligente, questionador e intelectualmente sempre renovado, com a vantagem de décadas de uma experiência riquíssima em sua vida pessoal e em sua carreira.

Espero que – impressa e digital – seja útil para futuras gerações de jornalistas, e que a marca se renove constantemente para continuar a ter o papel que sempre teve e mereceu ter no setor.

Afinal, a melhor homenagem ao Sinval é continuarmos curiosos – hoje e sempre.◼