Entrevista: De jornalista a protagonista
Entrevista: De jornalista a protagonista
Fotos: Lúcio Távola / ObritoNews
“Meus sonhos passam pelo Palácio do Planalto”
Em 1986, o jornalista Hélio Costa decidiu que não queria apenas cobrir a roda viva da história, mas fazer parte dela. De volta ao Brasil depois de 20 anos vivendo entre Londres, Paris e Nova Iorque, onde trabalhou na “Voz da América”, depois de ter montado o núcleo internacional da Rede Globo e produzido dezenas de reportagens, ele decidiu dar uma guinada em sua vida. Ou melhor, um vôo cego e rasante rumo a Brasília. O momento político brasileiro o inspirou a deixar de lado sua bemsucedida carreira jornalística para se arriscar do outro lado do balcão. O projeto inicial era passar apenas quatro anos no parlamento, deixar seu nome na lista de assinaturas da Constituinte e depois voltar para a Globo e seguir em frente. Com um rosto familiar aos brasileiros, que se habituaram a vêlo aos domingos no “Fantástico”, ou apresentando reportagens especiais para o “Jornal Nacional”, conseguiu com folga uma cadeira no Legislativo pelo PMDB de Minas Gerais, seu estado natal.
O projeto, porém, deu errado. No meio do caminho, uma paixão inesperada pela política e, porque não, pelo poder de fato, atropelou seu instinto de repórter. Terminado o primeiro mandato, ele até ensaiou uma volta à TV, no policial “Linha Direta”, mas foi só uma recaída. Dezenove anos depois de experimentar a política pela primeira vez, Hélio Costa deixou o Senado quando foi escolhido por Lula para assumir o Ministério das Comunicações. De seu novo e amplo gabinete, um dos mais cobiçados de Brasília, a vista o inspira a sonhar em voz alta. “Meus sonhos passam pelo Palácio do Planalto”, conta.
Antes mesmo de assumir seu novo cargo, Costa recebeu um bombardeio de críticas de excoleguinhas da imprensa. A mais constante diz respeito a seu passado na Globo, que lhe rendeu, na política, uma pecha que o persegue desde o primeiro mandato: lobista da família Marinho. Essa crítica ganhou novos adeptos quando Hélio Costa, ainda no Senado, lançou uma proposta que foi rechaçada até pela própria Globo: a ajuda do BNDES para os grupos de comunicação brasileiros. Alheio às críticas, ele ainda defende ardorosamente a idéia. Só que agora sua caneta tem muito mais tinta. Nesta entrevista exclusiva para IMPRENSA, o Ministro das Comunicações esmiúça, um a um, todos os gargalos de sua pasta, que são muitos, digase de passagem – TV digital, rádios comunitárias, telefonia fi xa, TV pública, software livre. Com posições firmes, às vezes controversas, Costa desafi a seus desafetos e pavimenta, ladrilho a ladrilho, pauta a pauta, o caminho rumo ao Planalto.
IMPRENSA – O senhor sonha em ser presidente da República?
HELIO COSTA – E quem não sonha? Todo mundo sonha. Pode até ser um sonho exagerado, mas só não sonha que não dorme. Como eu durmo muito bem, toda noite tenho um sonho bonito. E, às vezes, esse sonho passa pelo Palácio do Planalto (risos).
IMPRENSA – O senhor sentiu algum tipo de pre conceito dos “coleguinhas ” por ter mudado para o outro lado do balcão?
HELIO COSTA – Todos os meus amigos que deixaram o jornalismo para disputar cargo público se sentiram preteridos pelos colegas. Não sei a razão. Os jornalistas formam uma confraria. Se você sai dela, passa a ser visto como uma ovelha desgarrada. Levei muitos anos para tomar a decisão de fazer essa convergência – de jornalista para político – porque tive essa difi culdade. Ainda hoje vejo que muitos setores da imprensa têm difi culdade em conviver com meu sucesso. Eu tive uma trajetória, tanto no jornalismo quanto na política, mas até hoje eles (imprensa) se referem a mim como um exlocutor de rádio que fez campanha para um candidato. Sou sempre apresentado com desdém pela minha própria classe. Eles não sabem conviver com meu sucesso. Eles não querem meu sucesso.
IMPRENSA – Devido ao seu passado na Globo,o senhor foi cha mado por alguns jornalistas de “lobista da ABERT ” e defensor dos direitos da Globo no Congresso,e agora no Ministério.Como se sente em relação a esse tipo de ataque?
HELIO COSTA – Destaco minha passagem pela Globo porque fui bem tratado, bem pago, reconhecido e respeitado lá. Vejo que há uma certa difi culdade das pessoas, sobretudo na imprensa, em separar as coisas. Como senador, fi z uma proposta de convencer o BNDES a abrir uma linha de crédito para as empresas de comunicação nacionais, para que elas pudessem superar a crise do setor. Para que elas pudessem salvaguardar os 500 mil empregos de jornalistas que existem no Brasil. Através desses recursos, tanto uma pequena emissora de rádio da Bahia, um minúsculo jornal do Piauí, quanto a Rede Globo, Bandeirantes e SBT receberiam ajuda. Quem menos seria favorecida, nesse caso, seria a Globo, que já estava negociando sua dívida. A Globo disse logo de cara que não tinha interesse nesse recurso. No entanto, recebi centenas de emails dizendo que estava querendo usar dinheiro público para fi nanciar a mídia. O BNDES é um banco de investimento, tem a obrigação de socorrer a mídia nacional. Se isso não acontecer, nós vamos entrar em um processo, que já está ocorrendo nos EUA e na Ásia, em que a imprensa escrita será esmagada, engolida pela mídia eletrônica.
IMPRENSA – Chamaram essa idéia,,na época,de “PROER ” da comunicação...
HELIO COSTA – Não é nada disso. Nós perdemos uma grande oportunidade. Alguns representantes de empresas de comunicação foram na audiência pública que eu organizei no Senado dizer que não precisavam desses empréstimos do BNDES. A proposta é que a empresa candidata a esse recurso pagasse juros de mercado e obedecesse a uma série de critérios do banco.
IMPRENSA – Qual formato de TV pública o senhor defende?
HELIO COSTA – Defendo o modelo americano de TV pública, que é o mais vitorioso. Nos EUA, a TV pública não disputa mercado com a comercial. Uma TV educativa deve fazer jus ao nome. Tem que ter função exclusivamente educativa e deve ser bancada pelo Governo.
IMPRENSA – Não deve,então,como faz a TV Cultu ra,exibir anúncios,como os das Casas Bahia?
HELIO COSTA – A Cultura faz isso?
IMPRENSA – Faz..
HELIO COSTA – Sou contra a veiculação de propaganda. Ela (Cultura) deveria mudar seu formato. Não dá para ser educativa e disputar mercado com as TVs comerciais. imagem costuma ser muito ruim. A TV digital vai permitir que, através de uma caixinha em cima da sua TV analógica, que vai custar, no máximo, R$ 40, seu aparelho analógico se converta em digital.
IMPRENSA – A grande maioria das concessões de rádio e TV do Brasil foi para políticos e famílias que usaram seus veículos como ferramenta eleitoral.O que o senhor acha disso?
HELIO COSTA – No passado, essas concessões (para políticos locais) não foram um problema, mas uma solução. No interior do Brasil, emissoras de rádio e TV difi cilmente conseguem retorno fi nanceiro. O único retorno possível é político. Sendo assim, se as famílias (de políticos) não tivessem conseguido as concessões, o processo de implantação da TV no Brasil, sobretudo no Nordeste, teria se atrasado muito. De qualquer forma, a Constituição de 1988 corrigiu isso e criou novas normas, mais rígidas.
Veja entrevista completa na edição 205 de imprensa






