Flavius Josephe e a atualidade palestina, por Rui Martins
Flavius Josephe e a atualidade palestina, por Rui Martins
Jeanne Moreau sentada, só, diante de uma mesa com sua voz firme comanda o espetáculo. Ela é Flavius Josephe, historiador judeu, um dos poucos sobreviventes da destruição de Jerusalem pelo general romano Tito, a mando de Vespasiano. Diante dela o relato escrito pelo historiador daqueles dias que precederam o ataque final, em meio ao caos reinante nos anos 70 AD mesmo entre os próprios judeus, que, naquela época, faziam a guerra de resistência.
É uma peça de teatro representada ao sopé de uma pedreira, e fez parte do último Festival de Avignon. Mas é também um filme ou a filmagem da peça, depois do atual diretor do Festival de Locarno, Frédéric Maire, ter aceitado a proposta do cineasta israelense Amos Gitai de documentar com exclusividade para Locarno sua peça A Guerra dos Judeus.
A peça filmada recebeu o nome de A Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas e foi o segundo filme de abertura do Festival de Locarno, apresentado logo depois da comédia Days of Summer, ao livre da Piazza Grande sob um lua cheia de verão suíço.
Para apresentar a versão filmada da peça, ali estava no palco o cineasta Amos Gitai, sobrevivente na juventude de um avião derrubado pelos egípcios durante a Guerra dos Seis Dias, que se tornaria com seus filmes um dos críticos da política israelense. Alguns desses filmes já foram exibidos na Mostra de São Paulo com a presença de Amos Gitai, convidado por Leon Cakof.
A peça-filme equivale à leitura de textos daquela época conturbada e, de acordo com Amos Gitai, foi a realização de projeto acalentado há muitos anos. Ironia do destino - os constantes adiamentos fizeram com que a leitura da resistência judáica aos romanos lembre a resistência palestina aos israelenses.
Mas isso não é só obra do tempo ou do acaso, foi desejado por Amos Gitai, pois segundo ele, numa entrevista ao jornal do Festival de Locarno, "o texto de Josephe possui muitas fortes ressonâncias com a atualidade do conflito. O mesmo ocorre quando Josephe evoca as divisões entre os dirigentes políticos da época, dos dois lados, dizendo que isso levaria à catástrofe. Assim, o espetáculo toma seu ritmo com relação à atualidade."
Amos Gitai conta que a leitura teatral do texto de Josephe já havia sido oferecida, no passado, ao Festival de Veneza. "O narrador Josephe, judeu por nascimento, ex-comandante militante contra os romanos, se torna romano por necessidade e só não é executado sob a condição de contar o quadro da vitória romana.".
Sobre esse texto, muitas vezes citado mas pouco conhecido, Gitai fala de "sua beleza literária, já que Josephe dominava o latim, e se poderia comparar a um ensaio ou uma grande reportagem. Além disso, acrescenta Gitai, a narrativa de Josephe coloca questões críticas aos judeus seus contemporâneos e aos romanos, numa análise do nacionalismo radical ou fundamentalismo, assim como sobre a comportamento do império romano em terra estrangeira".
Sobre a atualidade da Guerra dos Judeus, Gitai destaca o movimento cíclico na história do Oriente Médio e aproximações com as políticas atuais de Israel e dos EUA em termos de desejo imperialista. Como um império intervem num pequeno país ameaçado de se fragmentar e se defronta com uma guerra de resistência nacional que, ao mesmo tempo é uma guerra civil religiosa?
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