Making Of: Jornal da Record

Making Of: Jornal da Record

Atualizado em 04/03/2006 às 10:03, por Pedro Venceslau e Thaís Naldoni.

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A arte da guerra

Sun Tzu, um estrategista chinês que viveu há mais de 2000 anos e escreveu A Arte da Guerra dizia que, para ser vitorioso, é preciso utilizar as armas do engano. O inimigo precisa subestimá-lo. "Quando és capaz de atacar, deves aparentar incapacidade", escreveu o sábio chinês.

A Rede Record parece ter ouvido esse conselho de Sun Tzu. Enquanto a Globo se preocupava com o eterno vice-líder SBT, os bispos e executivos da emissora trabalharam em silêncio. Nos últimos meses, atacaram e buscaram no inimigo seus melhores combatentes. IMPRENSA conta essa história.

No último dia 30 de dezembro, o jornalista Douglas Tavolaro foi chamado para uma conversa reservada na sala da presidência da Rede Record. Poucas horas antes, naquela mesma sala, outro jornalista, Boris Casoy, fora informado que seu contrato seria rompido, depois de nove anos de casa. Estacionado no Ibope com uma média de cinco pontos, o "Jornal da Record" já não era mais um produto tão rentável como antigamente. A cúpula da emissora, inquieta com a barulhenta estréia de Ana Paula Padrão no SBT, decidiu encomendar uma pesquisa ao Ibope para saber quais eram os gargalos do telejornal apresentado por Boris Casoy. Os resultados foram desanimadores. Lentidão, excesso de opinião, notícias burocráticas, overdose de manchetes de Brasília. Entre outras coisas, o público ouvido pela pesquisa sugeriu mais uma pessoa na bancada, ao lado de Boris. Mesmo ciente do resultado da pesquisa, Boris resistiu às mudanças e teve seu contrato rompido.

Muitas foram as teses apresentadas pela mídia para a saída de Boris. A apresentada acima nos foi passada por fontes do alto escalão da Record. Procurado por IMPRENSA, Boris preferiu manter um silêncio "sabático". A Record, por sua vez, nega que tenha sofrido pressão do governo federal para demitir o apresentador. Ou que o clima entre ele e a cúpula andava tenso desde o episódio da mala de dinheiro aprendida com um bispo da Igreja Universal que foi presidente da emissora. A demissão de Casoy representou apenas o primeiro lance num jogo de xadrez que se estendeu pelos meses de janeiro e fevereiro.

Não é mera coincidência

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Douglas Tavolaro não aparenta os 28 anos de idade que tem. Assim como o presidente da emissora, Alexandre Raposo (31), é um workahollic e o tempo parece ter passado mais depressa para eles. Tavolaro trabalha cerca de 15 horas por dia e quase não tem vida social fora da redação. Ao contrário do que muita gente pensa, sobretudo colunistas de TV e fofoqueiros de plantão, Douglas não tem parentes em cargos de chefia da Igreja Universal. Seu pai é metalúrgico no Tatuapé e sua mãe, dona de casa. Começou na Record em 2002, como produtor do recém-inaugurado núcleo de reportagens investigativas, uma idéia do seu antigo chefe, Luis Gonzaga Mineiro, hoje comandante-em-chefe do "SBT Brasil". Quando Mineiro deixou a Record e migrou para o SBT, Tavolaro foi promovido a diretor de Jornalismo. Suas atribuições, porém, eram bem limitadas, já que o principal telejornal da casa, o "Jornal da Record", era uma ilha em que Boris Casoy reinava absoluto.

Rádio - corredor

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Na tarde daquele dia 30 de dezembro Douglas saiu da reunião com carta branca para gastar o quanto fosse preciso para montar um telejornal capaz de bater de frente com a Globo. Sem Boris Casoy, ele passou a ser o homem forte do Jornalismo, que foi finalmente unificado. Para montar a equipe do novo "Jornal da Record", Tavolaro convocou sua "tropa de choque" na emissora, composta por Paulo Nicolau, Renato De Lago, Clóvis Rabelo, Luiz Canário, Ailton Nasser e Otavio Tostes. Para colocar o telejornal no ar, a emissora gastou cerca de R$ 2 milhões. Da equipe de Boris, apenas um repórter, Celso Teixeira, com oito anos de casa, permaneceu na emissora. "A estratégia adotada pela Record foi inversa a de outras emissoras. Em vez de gastar 70% da verba com um âncora e o resto com a equipe, como fez o SBT, investimos pesado na equipe de base", conta um executivo da emissora. Como nada se cria, tudo se copia, a emissora preferiu não tentar reinventar a roda. A estratégia, desde o começo, foi montar um telejornal igual ao "Jornal Nacional", inclusive com as mesmas cores na bancada, o mesmo formato de matérias e a mesma colocação na grade horária - como o recheio entre duas novelas - além, é claro, de um âncora familiar, de preferência um ex-global.

Não me chamem de Fátima

Nas palavras de Tavolaro, em entrevista à Folha de S.Paulo , a Record fez "um ataque a Perl Harbor [bombardeio dos EUA ao Japão, em 1941] a Globo". Foi tudo muito rápido, de modo que não houvesse tempo para contrapropostas.

Depois de levantar os nomes mais importantes do jornalismo da Globo e fazer uma "pesquisa no mercado" para checar o valor médio dos salários da concorrente, os executivos da Record começaram a disparar telefonemas. "Descobrimos que os números não eram tão altos quanto imaginávamos", conta um executivo da emissora. Um repórter da Globo que ganhava R$ 8 mil, por exemplo, passou a ganhar R$ 14 mil na nova casa.

O âncora convidado para comandar o telejornal não podia ser outro: Celso Freitas ( veja entrevista na página 27 ), um veterano da Globo com passagens pelo "Jornal Nacional", "Fantástico" e "Linha Direta". Sua companheira de bancada, Adriana Araújo, foi "roubada" da Globo de Brasília, onde era repórter.

Camarim para chamar de meu


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