Meu amigo apodítico, por Gabriel Priolli
Amigos recordam os momentos vividos e celebram a vida de Sinval de Itacarambi Leão, um ano após seu falecimento. (23/02/1943 – 05/08/2024)
Sinval e Gabriel Priolli na redação da Revista IMPRENSA no fim dos anos 80 (acervo IMPRENSA)
Por Gabriel Priolli
Um ano já se passou sem o Sinval… Eu sinto falta dele de muitas formas e por muitas coisas, a começar do bom humor inabalável e da positividade permanente. Acima de tudo, da contribuição que dava ao jornalismo, no comando de IMPRENSA por 37 anos ininterruptos.
Mas devo confessar que Sinval me falta muito por uma razão egoísta: a sua insuperável capacidade de me animar. Cada vez que enviava uma coluna para a revista, eu ganhava dele uma super carga na bateria. Ele renovava a minha vontade de escrever.
“Tive um professor de português que gostava de usar o adjetivo erudito ‘apodítico’, para qualificar o que era correto, certo e perfeito, e isso em grau superlativo”, me escreveu uma vez. “Digo o mesmo da sua coluna: seus textos são sempre apodíticos.”
Em outra oportunidade, ele mandou: “Gabriel, brilhante a sua coluna . Se houvesse Prêmio Esso para colunas midiáticas, ganharia fácil. É uma joia literária, a frase que encerra o texto.” E, não bastasse, ele ainda “lacrou” desta forma em mais uma ocasião: “Gabriel, você é o maior mediawatcher do Brasil. Acho isso porque, além de se ater com profissionalismo à crítica, a partir do estado da arte do jornalismo, você escreve ainda em linguagem que todos entendemos”.
Dá para não ter saudade de um editor assim? De um amigo tão generoso?
Em retribuição, neste momento em que os amigos estão evocando a sua figura, compartilho uma pensata inédita de Sinval, que veio num de seus emails, em diálogo com uma das minhas colunas.
“Gabriel, há muito eu não via uma análise de pesquisa tão perspicaz como essa sua coluna. Lembro-me, apenas, das bizarras interpretações que o bruxo da Globo*, o Homero Icaza y Sanchez, fazia da audiência das novelas e shows, tipo ‘balanço os relatórios do Ibope e vejo cair deles lantejoulas, confetes e flores’. Para mim, mero mortal, eram hermenêuticas realmente heterodoxas. Já sua exegese, embora nada acadêmica, me impressionou pela clarividência e pertinência.
Seu comentário deixou-me mais aliviado, pois não consegui, mesmo me esforçando ao máximo, analisar referida. A complexidade dos dados resultantes dela me assustou. O estrago (sic) que o digital fez na mídia tradicional desorganizou minhas categorias de pensar a comunicação e o jornalismo.
Por exemplo, o acesso e consumo de notícias virou um capítulo tão fragmentado, que nem a falta de cruzamentos estruturais no output da pesquisa, exceto o corte de faixas etárias, permitiu-me ir além de suposições e hipóteses, que às vezes não resistiam à significância estatística.
Mas a leitura sumária que você fez, melhor até do que a do Mauricio Moura (engenheiro da pesquisa) e a do Leão Serva, seu primeiro tradutor na live de apresentação dos dados, na TV Cultura, me ajudou a ver algumas conclusões do que hoje está acontecendo na mídia.
De fato, o que você pinçou é extremamente importante, a começar pela imagem da cobra e sua pele. Afinal, no futebol, a imagem do réptil peçonhento é corriqueira para designar as polivalências e magnificências dos ídolos, que não podiam ser expressas só em palavras.
O futuro do jornalismo é realmente uma incógnita impossível de ser profetizada. A notícia não vai desaparecer, é o que parece, mas uma evolução que resguarde seu DNA é algo que ninguém subscreve, nem os mais vanguardistas mediaviewers.
Convenhamos que DNAs são mutantes. O que você chama de bolha e que, de fato, são balões preenchidos pelos algoritmos, é o que hoje os jornalistas chamam de ‘público-alvo’.
Agrego às questões que você coloca na coluna uma dúvida: a sobrevivência do exercício do contraditório. Por que apurar o nexo causal entre a verdade e os fatos? O medo da cobra mudar de pele e virar bicho de sete cabeças, aí está uma evolução que o iluminismo não foi capaz de prever."
Pensar, livre pensar!
Sim, amigo querido... Pensar, livremente, pensar o jornalismo e a vida, na riqueza das nossas conversas. Elas me faltam, mas o seu estímulo, não.
Eu agora falo comigo mesmo, por nós dois, na nossa inquietação de sempre, de conhecer o mundo e contribuir para melhorá-lo. ◼
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Gabriel Priolli foi diretor de redação da Revista IMPRENSA em 1987
*Sinval de Itacarambi Leão foi criador da revista Mercado Global em 1974 e da Revista IMPRENSA em 1987.





