O Jornalismo na saúde e a saúde no Jornalismo
O Jornalismo na saúde e a saúde no Jornalismo
A Folha de S.Paulo acaba de criar uma página diária de saúde, o que deve ser saudado com entusiasmo porque esta cobertura diz respeito a um campo de grande valor jornalístico, mas também político, empresarial, profissional, científico, ou seja, há várias dimensões e interesses em jogo.
Na verdade, a Folha tem uma larga tradição nesta área e é forçoso reconhecer que, dentre as coberturas realizadas pela mídia nacional sobre saúde, é o jornal do Frias que tem assumido, ao longo do tempo, uma perspectiva mais crítica, buscando contextualizar a informação sobre saúde, denunciando práticas lesivas ao interesse público, desmistificando certas relações hipócritas da indústria da saúde etc. Pena que tenha perdido (por culpa dela) profissionais que sempre primaram pela cobertura qualificada em saúde como o Aureliano Biancarelli, mas é assim mesmo, volta e meia, como dizem os jornalistas, o "passaralho" ronda as redações, ceifando cabeças e mentes. Suportar o mau humor e a incoerência de boa parte dos empresários da comunicação não tem sido tarefa fácil. Os coleguinhas da redação que o digam.
Ainda é cedo para avaliar esta iniciativa da Folha, mas, pelo andar da carruagem, deverá optar por reportagens sobre temas de atualidade na área em vez de notinhas sobre saúde, aquele velho formato de almanaque que pouco acrescenta.
Vale a pena aproveitar esta excelente oportunidade para tecer algumas considerações a respeito da cobertura de saúde pela mídia.
Não é razoável, se é que a Folha vai fazer isso, correr o risco de uma divulgação da saúde comprometida apenas com o conhecimento gerado na universidade porque, muitas vezes, ela se encerra num vertente técnica e dá pouca atenção a outras dimensões, como a econômica, a política, a sócio-cultural etc. E não quer dizer mesmo que tenhamos aí sempre fontes independentes porque, como em outras áreas, os interesses comerciais pegam pesado, como estamos vendo neste momento com o assédio brutal dos laboratórios às universidades e institutos de pesquisa em todo o mundo. Aliás, você já leu A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, de Márcia Angell, publicado pela Record? Se não, deveria ler para compreender como eles atuam. Saberá , por exemplo, que gastam mais em marketing do que em pesquisa em desenvolvimento; que, na prática, tem deslocado a pesquisa para as universidades e institutos de pesquisa, financiados pelo dinheiro público; que mascaram medicamentos velhos para lançá-los como novos, tentando estender as patentes e assim por diante. A gente conhece bem esta história com a pressão insuportável sobre governos (caso brasileiro com os remédios para AIDS), uma arrogância tediosa e altos lucros (seria sempre interessante ver quanto andam mandando para as suas matrizes e não deixar de controlar o preço dos remédios, apesar do lobby em contrário).
Parece pelo menos que a cobertura da Folha não repetirá o vício de outros veículos que confundem cobertura de saúde com cobertura de doença, não contemplam adequadamente o conceito de promoção de saúde e ficam (o que é lamentável) refém de pautas geradas pela indústria da saúde, esperando certamente contrapartida (em termos de anúncios) da chamada Big Pharma. Com certeza (estaremos errados?), a Folha não criou o espaço para atrair anunciantes, embora isso nada fosse demais (a propaganda sustenta também os veículos), se mantida a separação entre a área editorial e a comercial.
Como sabemos, tem sido cada vez mais comum observamos nos nossos veículos o dedão (às vezes sujo, contaminado) dos interesses comerciais espúrios pressionando as redações, gerando projetos de mercado, publieditoriais e toda a gama moderna de "jabás", operações casadas evidentes entre a reportagem e os interesses dos anunciantes.
A indústria da saúde é pródiga nisso, com a cumplicidade de veículos que se vendem com facilidade e com a conivência de autoridades que não têm olhos para coibir tais abusos, como a divulgação irresponsável de medicamentos no rádio e na TV (depois do Engov, agora chegou o Atroveran, que horror!), que estimula a auto-medicação e favorece o charlatanismo, num país que tem mais farmácias do que padarias.
É fundamental que estejamos, jornalistas e a sociedade civil em geral, vigilantes com respeito a esta investida gananciosa dos grandes laboratórios (se há exceções, parabéns para eles!) que se proclamam socialmente responsáveis mas continuam ferindo escandalosamente a legislação relativa à propaganda, como denuncia frequentemente a ANVISA. Aliás, uma boa medida seria divulgar amplamente o nome dos laboratórios que andam sacaneando o consumidor em suas campanhas publicitárias. Alguns laboratórios já incluem a multa (que é reduzidíssima) no orçamento das campanhas e, portanto, o negócio é ferir-lhes também a imagem e a reputação. Morrem de medo disso. Há empresas que fazem as coisas erradas, mas se empenham ao máximo para que a sociedade não saiba disso. Não é esse o caso da AmBev com o seu endomarketing da humilhação (processos recorrentes por assédio moral, movidos por seus funcionários, como o recente no Rio Grande do Norte e que gerou até obrigatoriedade de campanha paga por ela na mídia daquele estado)? Fazem bobagem, mas não querem que se divulgue.
É de esperar que a Folha de S. Paulo mantenha o tom crítico e que continue desmascarando a indústria tabagista (produtora e vendedora de drogas, lícitas eu sei, mas drogas que matam!), acompanhando atentamente a indústria de agrotóxicos (co-irmã da indústria dos transgênicos), denunciando o marketing agressivo da Big Pharma (quando vamos acabar com esses brindes valiosos, essa relação promíscua entre determinadas empresas e determinados profissionais de saúde, como sinaliza o CREMESP?) e empresas de planos de saúde predadores (está certo encaminhar os seus pacientes para o SUS para que a gente pague a conta que deveria ser delas?).
A iniciativa da Folha deveria ser copiada por outros veículos, mas fica sempre aquele receio de que se veja nisso apenas uma opção para arrebanhar anúncios, que é o que mais seduz alguns (seria a maioria?) empresários da comunicação etc.
Parabéns ao pessoal da Folha e agora só falta ela fazer uma coisa para demonstrar efetivamente o seu compromisso com todos nós e com a saúde: deixar de lado o patrocínio da Philip Morris em seus cursos de formação de jornalistas porque este jornal (e a maioria dos veículos também) sabe e tem apontado corretamente (até em editoriais, no caso da Folha) os deslizes éticos da indústria tabagista, que investe mesmo é em marketing e em advogados para evitar processos derivados de seus produtos nefastos.
É sempre bom repetir: este negócio de Cruz e de Morris no nome das empresas de tabaco não deve ser mesmo mera coincidência e evoca o que acontece com quem é seduzido por seus produtos nocivos (10% das nossas crianças em São Paulo fumam, o que deveria merecer ação enérgica das autoridades e um belo projeto de educação para a saúde nas escolas).
Em nome da saúde, está na hora de enquadrarmos quem anda penalizando a saúde do brasileiro e gerando um prejuízo imenso para os cofres públicos. Por que não aumentar bastante o preço do cigarro como alguns países já fizeram e com grande sucesso? Por que não aumentar os impostos a ponto de sufocar a indústria de morte?Afinal de contas, isso seria até pouco para quem mata milhões em todo o mundo. Ou não mata?
O Valor Econômico do dia 22/10/2008 revela que o Brasil está propondo que a indústria do cigarro financie o combate contra o contrabando. Está bem, o Governo tem que fazer a parte dele, precisa fiscalizar, mas tem também que tirar dinheiro de quem lucra à custa da saúde dos outros. Tudo que for feito contra a indústria do cigarro será visto como positivo pela população. O negócio é respeitar e cuidar dos fumantes (é um vício, uma doença em boa parte dos casos) e pegar firme nos que produzem, investem pesado para seduzir novos clientes e fidelizar os já conquistados. É assim que se deve fazer com quem fabrica e vende drogas, mesmo as lícitas.
Em tempo: e como acabou a tal da máfia dos medicamentos em São Paulo? Os representantes da indústria, se envolvidos na quadrilha, não vão para a cadeia? Vai acabar tudo em pizza? Esta é uma boa pauta para a Folha, mas acho que foi levantada pelos jornais do grupo Estadão e a gente sabe que um veículo não gosta de seguir pauta gerada pelo concorrente.
Vamos lá, investigando, investigando duro e rápido. É necessário usar as algemas que estão disponíveis. Na área da saúde, infelizmente, há muitos braços que merecem estes emblemáticos instrumentos de metal. Para muitos, a cadeia é o melhor remédio.






