O melhor anticoncepcional do mundo
O melhor anticoncepcional do mundo
Um colega ligou ontem, quinta-feira, quando fecha a semanal em que ele trabalha, para dizer, entre tantas bobagens, que não há anticoncepcional melhor que fechamento. Ele fez uma pesquisa interna na redação, sem rigor científico, e o excesso de sinceridade me comoveu: ninguém, nenhuma vivalma, tinha energia para nada quando voltava para casa. Como diz o outro, ninguém comparecia.
O que ele contou é apenas um sintoma de algo muito sério que acomete não apenas os jornalistas, mas os profissionais de maneira geral. No jornalismo, o problema é que se tornou aceitável acatar os tentáculos da profissão na vida particular. Ninguém questiona a interferência que o trabalho tem na vida off-redação. Em casas em que há mais de um jornalista (casais, ou pais e filhos, por exemplo), o drama deve ser ainda mais acentuado.
O problema não é exatamente que falte tempo para os pequenos prazeres da vida cotidiana. Isso acontece com muitas outras profissões. O problema é que, no caso do jornalismo, o martírio é mistificado. Como se fôssemos uma espécie contemporânea de Santa Luzia, nosso sofrimento legitima nossa decência. E o fechamento é principal chaga nos nossos olhos, o vidro que nos impede de ver. Não há jornalista que não se queixe do fechamento, mas não há um, um sequer, que não o adore. O fechamento ganha, para o jornalista, a aura que o plantão tem para o médico, a diligência para o policial, a sujeira para o faxineiro.
Pergunto, inocentemente: existe jornalista sem fechamento? Melhor: sem fechamento traumático? Se perdermos o fechamento, perdemos parte da nossa identidade mais obscura, porque o fechamento permite que os nossos monstros venham à tona e justifica aquilo que, no começo do mês ou da semana, ou às 13 horas, não poderia ser justificado. Temo que não seja compreendido, porque eu, particularmente, odeio fechamentos. Eles não são parte de minha personalidade e viveria muito, muitíssimo bem sem eles tal como eles foram construídos como discurso.
Quantas vezes você recusou um convite de um amigo, deixou de atender um telefonema de três minutos ou de dar atenção a seus filhos porque "hoje é dia de fechamento" ou "estou fechando o jornal agora"? Eu, várias vezes. Isso não faz sentido algum. Prefiro ser meio-jornalista a viver as artificiais chagas do fechamento. E ser feliz, independentemente do dia da semana.
Que tal falar sobre isso com seu analista, seu homeopata, sua vizinha ou seu colega do lado? Pode ser bom, não apenas para você, mas para o veículo onde você trabalha.






