Parte 6: Como a IA está transformando as redações no mundo
Neste capítulo, mostramos como a IA está transformando o processo de criação e implementação de avatares usados para engajamento com os usuários.
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Todos os anos, a Innovation Media, uma consultoria global especializada que trabalha com as mais importantes empresas de comunicação do mundo, publica um relatório com as tendências e desafios para o setor, com base em suas pesquisas, seu trabalho com empresas e profissionais de comunicação e análises de especialistas em todo o mundo.
O que segue abaixo - e nas próximas páginas - é a tradução para o Brasil dos artigos de sua mais recente publicação.
No artigo anterior, os especialistas da Innovation cobriram o uso de IA para aumentar receitas, reter assinantes e fazer com que a publicidade seja mais eficiente - atividades fundamentais para garantir a sustentabilidade das marcas -, além do uso de IA para pesquisas aprofundadas, jogos e interação. Neste artigo, o foco é o uso de avatares como ferramenta de engajamento com a audiência.
A Klara do Express.de não é a única do seu tipo. Avatares estão sendo cada vez mais utilizados no jornalismo para aprimorar a narrativa e enfrentar desafios como a escassez de pessoal e a segurança dos repórteres. Para os telejornais em particular, os avatares de IA podem proporcionar experiências interativas e imersivas, oferecendo potenciais soluções para organizações que enfrentam dificuldades na contratação de repórteres ou que operam em ambientes perigosos. No entanto, a aceitação pública de conteúdo noticioso gerado por IA ainda é limitada.
A versão mais recente do Digital News Report do Instituto Reuters revelou que apenas 36% dos entrevistados se sentiam à vontade com notícias produzidas por humanos com a assistência de IA, e apenas 19% se sentiam à vontade com notícias geradas principalmente por IA, mesmo com supervisão humana. Isso é talvez representado de forma ainda mais contundente pelos avatares de IA na televisão.
Exemplos
EL SURTIDOR (PARAGUAI)
O Instituto Reuters estudou como a publicação digital paraguaia El Surtidor desenvolveu um chatbot com inteligência artificial chamado Eva, projetado para destacar o impacto do tráfico de drogas nas mulheres. Por meio de um formato interativo e conversacional, Eva personifica uma mulher presa por crimes relacionados ao tráfico de drogas, permitindo que o público conheça suas experiências em primeira mão.
Essa abordagem humaniza questões sociais complexas, tornando-as mais acessíveis e emocionalmente impactantes para os leitores. Ao utilizar narrativas impulsionadas por IA, o projeto do El Surtidor vai além do jornalismo tradicional, oferecendo ao público uma maneira mais personalizada e participativa de compreender as consequências das políticas de combate às drogas.
O chatbot guia os usuários pela história de Eva, apresentando escolhas e perspectivas que refletem as duras realidades enfrentadas por muitas mulheres no sistema de justiça criminal do Paraguai. Esse uso inovador de avatares de IA demonstra como a tecnologia pode aprofundar o engajamento do público e transformar a forma como o jornalismo investigativo é apresentado.
THE GARDEN ISLAND (EUA)
Em resposta aos crescentes desafios de pessoal e à necessidade de uma produção econômica de notícias, o Garden Island, um jornal local em Kauai no Havaí, introduziu em 2024 âncoras alimentados por inteligência artificial, chamados James e Rose. Esses avatares digitais, impulsionados por IA generativa e tecnologia de conversão de texto em vídeo, foram projetados para apresentar artigos de notícias escritos em um formato simulado de televisão. Ao contrário da reportagem tradicional baseada em texto, James e Rose oferecem uma apresentação mais envolvente e humana, completa com modulação de voz e expressões faciais que imitam âncoras de tv reais.
Essa iniciativa foi vista como uma forma inovadora de manter a cobertura de notícias locais em uma era em que muitos pequenos jornais enfrentam dificuldades financeiras e redução de pessoal nas redações. No entanto, a recepção do público local foi mista, de acordo com uma reportagem da Wired, com alguns telespectadores expressando desconforto com a natureza robótica dos apresentadores de notícias de IA.
Muitos leitores de longa data criticaram a falta de conexão humana, ressaltando que os avatares de IA, embora visualmente impressionantes, carecem da autenticidade e da confiança transmitidas pelos jornalistas reais.
A grande questão é se o público realmente abraçará essa tecnologia. Até agora, a resposta em Kauai sugere hesitação. Alguns telespectadores têm dificuldade em ver James e Rose como kama‘aina (moradores locais). “É assustador”, disse uma moradora local à Wired. “Ninguém que eu conheço acha que isso seja uma boa ideia.” Para um morador de longa data, Padraic Gallagher, o problema não é apenas a aparência, mas também o ritmo. Com as trocas de falas entre James e Rose, além das interrupções para anúncios, ele diz que as transmissões muitas vezes acabam durando mais do que o esperado.
Felix Simon, pesquisador da Universidade de Oxford que escreveu extensivamente sobre IA na mídia e é citado no artigo da Wired, diz que o que chama de “efeito vale da estranheza” pode desempenhar um papel nas respostas negativas dos telespectadores às IAs. Além disso, ele diz, as pessoas podem passar a confiar em apresentadores de notícias locais que se tornam o “rosto das notícias” para elas. “É um vínculo pessoal, e a ideia de que isso seja substituído por algo gerado por máquina provavelmente causará desconforto em alguns”, disse ele.
BABEL (UCRÂNIA)
A INMA informa que a organização de notícias ucraniana Babel planeja criar avatares de IA que replicam as vozes e aparências de seus jornalistas para permitir a continuidade da produção de conteúdo. O objetivo é manter a produção de conteúdo apesar da escassez de pessoal causada pela migração e pelo recrutamento militar durante a guerra.
OFF RADIO KRAKOW (POLÔNIA)
Em outubro de 2024, a OFF Radio Krakow, uma emissora de rádio polonesa, tentou inovar substituindo seus jornalistas humanos por apresentadores gerados por IA. Essa iniciativa visava atrair o público mais jovem, com avatares de IA discutindo questões culturais e sociais, incluindo tópicos relevantes para a comunidade LGBTQ+. No entanto, a iniciativa enfrentou forte reação negativa, levando ao seu encerramento após apenas uma semana. A controvérsia começou quando Mateusz Demski, ex-jornalista da emissora, publicou uma carta aberta criticando a substituição de funcionários humanos por inteligência artificial. Ele argumentou que isso criava um precedente perigoso para a mídia e para as indústrias criativas. Uma petição em apoio à sua posição obteve mais de 23 mil assinaturas. Em resposta à indignação pública, o editor da estação, Marcin Pulit, afirmou que o experimento, inicialmente previsto para durar três meses, estava sendo encerrado precocemente devido às fortes reações e à ampla crítica recebida. ◼
No próximo artigo, a Innovation destaca ferramentas de IA já disponíveis no mercado que podem ser úteis para empresas de comunicação.
Para acessar a publicação original da Innovation, visite o site innovation.media
Como a IA está transformando as redações no mundo:
Parte 1: Introdução
Parte 2: Personalização, otimização de paywall e geração de conteúdo
Parte 3: Reutilização de conteúdo e checagem de fatos
Parte 4: Criação de vídeo e áudio
Parte 5: Otimização de publicidade e conteúdo interativo
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