Quem matou a poesia? / Por Eduardo Ritter - UNIJUÍ (RS)

Quem matou a poesia? / Por Eduardo Ritter - UNIJUÍ (RS)

Atualizado em 20/08/2005 às 16:08, por Eduardo Ritter e  estudante de jornalismo da Universidade Regional do Noroeste do Estado do RS.

Por Não foi você
Nem foi a máquina de escrever
Que matou a poesia

Não foram os deuses
Nem foi a morte de Deus
Não foi o jabá da academia
Que matou a poesia...


(Problemas... sempre existiram - Engenheiros do Hawaii)

Está certo. Humberto Gessinger, vocalista da banda gaúcha de pop rock Engenheiros do Hawaii não é nenhuma unanimidade como poeta. Mas hoje, mais do que nunca, cabe a pergunta: quem matou a poesia? Como diz a letra, não foram os deuses nem a morte de Deus. Tampouco a academia. Então quem foi? A mídia? A música? O público? A modernidade? A globalização? A ganância? A robotização do ser humano, cada vez mais mecânico? Infelizmente os últimos poetas nacionalmente reconhecidos pelo grande público não estão mais aqui para responder. Mas quem foi que disse que a poesia é só Vinícius de Moraes, Augusto dos Anjos e Carlos Drumondt de Andrade? Por que autores que investem seu tempo, dinheiro e sentimento nesse gênero literário não é mais reconhecido, independentemente da qualidade da obra?
Para o estudante de jornalismo da Faculdade Pinheiro Machado do Rio de Janeiro, escritor e poeta assumido Vinícius Longo, de 22 anos, a poesia ainda não morreu, mas está quase na UTI, sendo sucateada pela mídia e pelo público. "Tudo que se faz com a cultura aqui no Rio é meio marginal. Estamos sendo sucateados aos poucos em todos os setores da cultura. A começar pelo ponto mais grave, que é a greve dos servidores nacionais de Cultura. A realidade deles é dura demais para ser verdade", destaca. Apesar disso ele declara sua paixão pela poesia. "Poesia é viver, é se revoltar e se entristecer só. Dividindo a tristeza e a alegria com todos. Poesia é um ato público de amor!". Médicos do mundo das letras que estão tentando ressuscitar a poesia não são poucos, ao contrário do que se pensa. Muitas pessoas escrevem e lêem o gênero apesar de não admitirem isso em público. Agem como se fossem criminosos, mafiosos ou traficantes. Pensam que se revelarem seus segredos obscuros serão presos, perseguidos e torturados pela ditadura imposta pela opinião alheia.
Na edição número 3 da revista Discutindo Literatura o publicitário, escritor, professor e poeta (com muito orgulho, segundo ele) Ulisses Tavares dá seu depoimento sobre o contato que tem com estudantes abordando o tema. Em uma de suas palestras ele conta que após falar mais sobre o assunto muitos tomaram coragem e revelaram que também escreviam poesia. Segundo ele, alguns até se empolgaram e leram seus versos, e assumiram que escondiam seus textos há muito tempo em seus cadernos e gavetas. O poeta questiona ainda "como em uma época em que nenhuma carlaperez tem vergonha de mostrar a bunda, ainda se tenha tanta dificuldade de expor sentimentos em público?". Em outro artigo da mesma revista, Ulisses Tavares ironiza dizendo que os jovens não devem ler. Afinal, para que ler, se lendo se percebem que as coisas estão erradas? Se ler, a pessoa também vai querer questionar e participar das decisões e do destino do país e vai começar a comparar opiniões, acontecimentos, impressões e emoções, além de descobrir que a sua vida anda meio torta e que existem outras alternativas. Então, para que ler? "Tudo isso dá muito trabalho", explica Ulisses. Já o jovem Vinícius Longo, que mora no bairro de Bonsucesso, subúrbio do Rio, salienta que o jovem da periferia não tem acesso nem incentivo para práticas como a poesia. "Convivo com pessoas que tem tempo e disponibilidade para fazer tudo, mas os livros só estão disponíveis nas bibliotecas, que são pouquíssimas! E estes não recebem nenhum estímulo por parte da escola, da família ou amigos", explica.
Na única oportunidade que tive de visitar e conhecer o local onde Vinícius mora, pude acompanhar seu trabalho voltado para a cultura no Sesc da Zona Norte do Rio e testemunhar o esforço e a tentativa que muitos tem em expandir e incentivar pessoas sem nenhum recurso a investirem seu tempo e sua energia na literatura e na cultura. São pessoas que não tem muitos recursos e que teoricamente não teriam a obrigação de fazer isso, mas que fazem pelo simples prazer e sonho de melhorar a vida de outros, que possuem ainda menos condições. Vinícius Longo destaca que as tentativas do governo de dar acesso à cultura para a população estão sendo desastrosas, como no caso das Bienais. "No Rio estudante de escola pública paga três reais e este ingresso pode ser trocado por livros do mesmo valor. As editoras oferecem livros de baixíssima qualidade (não todas) e os mesmos saem satisfeitos com livros que nem sabem direito o que querem dizer. Estamos falando sobre conteúdo e não apenas ter acesso. Nem se discute gêneros. É bem complicado", salienta. Apesar disso ainda há esperança. Ele aponta a popularização da Internet como uma forma de divulgar e incentivar a prática do gênero. "Apesar do acesso de cerca de 20% da população a Internet, este é um dos caminhos mais interessantes, pois a interação com os próprios poetas é uma ação totalmente viável. Vejo muito poeta vendendo seus próprios livros pela Internet, se tornando as próprias industrias culturais". A socialização dos trabalhos através da rede e sem custos passa a ser uma saída para que autores desconhecidos e que não tem condições de bancar sua própria publicação divulguem seus trabalhos. "A rede é a participação. A distribuição ainda continua fora da rede, mas é o meio do poeta e os outros que vivem do livro existirem em um comércio justo e de alcance a todos", salienta.
Já o jornalista gaúcho Maikel Silveira, que mora há 10 anos em Guarapari no Espírito Santo, reforça a idéia de globalização da poesia destacando que não se diminuiu a produção literária, mas sim houve uma reformulação na forma de divulgação do trabalho, que já não conta com o apoio da grande mídia. "O que mais vejo por aí é gente poetando. Uma busca no Google pode mostrar isso. Creio que o que mudou, nas últimas décadas foi a relação do público com a poesia. Depois que os poetas começaram a pensá-la de formas diferenciadas, sobretudo depois de Mallarmé, a poesia ganhou outras feições", salienta. O jornalista de 23 anos acrescenta que também houveram várias mudanças na linguagem e no conteúdo da poesia atual. "Hoje, poesia boa é aquela capaz de extrair o máximo da linguagem, aquela capaz de subvertê-la, capaz de criar novos sentidos para desvendar o real oculto pelas limitações da palavra. Antes, parece-me, a poesia tinha uma relação maior com o sentimento, com o romantismo, com a musicalidade e com o ritmo, proporcionados, sobretudo, pela métrica, e estava mais próxima do "cidadão comum". Talvez esse tipo de poesia tenha sido soterrado pela música popular, mas não se pode afirmar nada quanto a isso", destaca.
Para o advogado, jornalista e Doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo Valdenizio Petrolli ainda existem muitas pessoas que apostam e investem no gênero, organizando encontros e discutindo o assunto. "Aqui, em Santo André tem um "point" chamado Alfarrábio que reúne diversos poetas do Grande ABC. Esse grupo é liderado pela poetisa Dalila Teles Veras. Aos sábados, na livraria Alfarrábio, tem um encontro de poetas, pintores, desenhistas, chargistas e jornalistas. Aqui também existe a Academia de Letras do Grande ABC que reúne diversos poetas. Um deles é o jornalista Hildebrando Pafundi, que recentemente publicou um livro de poesias. Ele mantém um bom relacionamentos com novos poetas do Nordeste", acentua Petrolli. Ele acrescenta que com a falta de apoio da grande mídia, uma das melhores formas para divulgar o trabalho realizado são as feiras e a integração entre escritores e poetas das diferentes regiões do país. "Eu conheci um grupo semelhante ao nosso em Porto Alegre. Eles vendem os seus poemas na Feira de Arte. Em Santo André tem um poeta, o Cláudio Feldman, que há muitos anos freqüenta a porta do Teatro Municipal de Santo André e outros locais da cidade oferecendo seus poemas. Ele escreve a sua poesia numa folha e tira várias cópias e pede uma contribuição. Qualquer coisa, até mesmo cinco centavos. Ele é muito conhecido e todo mundo o prestigia. O pai do Cláudio foi o cineasta Aaron Feldeman, já falecido. Ele fazia filmes de arte e é muito respeitado no exterior e consta dos catálogos de cinema. Já virou tese na USP", salienta. Já em relação a falta de apoio dos meios de comunicação de massa, Petrolli destaca que tanto as emissoras de TV quanto os jornais preferem dar espaço para assuntos "comerciais" e que dêem ibope. "Os meios de comunicação não se interessam pelos poetas, principalmente pelos mais jovens. O interesse é por assuntos que possam dar ibope rápido", salienta.
Apesar de não ser um poeta típico, Petrolli destaca que em sua profissão a poesia deve ser feita diariamente. "Na realidade nós, jornalistas, somos poetas do dia-a-dia", finaliza. Pelo menos assim deveria ser.

O POETA MALDITO

Se já está difícil se achar poetas normais, quem dirá os chamados "malditos" que marcaram as décadas de 60 e 70, apesar de só serem reconhecidos pelo público muito tempo depois. Um deles é Charles Bukowski, alemão naturalizado norte-americano. Apesar de ter passado a vida inteira se autodenominando poeta, foi na crônica e no romance (mais especificamente com Hollyood e Pulp) que o velho Buk se consagrou mundialmente. Teve livros de poesias publicados, mas foram os menos vendidos. Usando uma linguagem coloquial e utilizando termos fortes que chocam os moralmente e politicamente corretos, ele se consagrou por traduzir em sua obra o sentimento dos renegados, apaixonados não correspondidos e surrados pela vida, ou senão simplesmente aos "fudidos", como ele mesmo gostava de denominar aqueles que sofrem com a vida. Bukowski fala em seus livros que teve a pior infância possível, o que ficou comprovado na biografia escrita pelo jornalista inglês Howard Sounes, que fez um rico trabalho de pesquisa e de leitura sobre o escritor. Apanhava freqüentemente de seu pai, ao qual sempre declarou o mais profundo ódio e desprezo, e era sempre xingado e humilhado pela sua mãe. Teve infância e adolescência problemáticas, sendo sempre ridicularizado pelos colegas, e só foi ter seu primeiro relacionamento com uma mulher após os 20 anos de idade. Trabalhou a vida inteira nos Correios e em outros empregos "manuais", sempre sonhando em ser escritor. A fama, o dinheiro e o sexo (que garantia ser a única coisa boa da vida) só veio após os 50 anos. Apesar disso, continuou levando a sua vida de "vagabundo" e "sacana" sem ligar para o que os outros pensavam. Com Charles Bukowski é difícil haver meio termo. Ou se gosta ou se odeia a obra dele. Para aqueles que não o conhecem, ai vai um de seus poemas:
Quando minhas mãos pálidas
Deixarem cair a última caneta
Em um quarto barato
Eles vão me achar lá
E nunca saberão
Meu nome
Minha intenção
Nem o valor
Da minha fuga

Charles Bukowski foi apenas um dos tantos autores chamados "malditos" que marcaram essa época, mas que foram antecedidos por outros e que inspiraram escritores que vieram depois. Fica impossível se falar de todos, já que seriam necessárias verdadeiras enciclopédias para tentar resgatar apenas pedaços da vida dessas pessoas que sonharam e que colocaram aquilo que sentiram na ponta da caneta ou nas teclas de uma máquina de escrever. O mesmo dá para se falar dos que ainda acreditam e ainda conseguem colocar um pouco de ar nos pulmões da poesia, hoje, com as teclas do computador.

INSPIRAÇÃO ACIMA DE TUDO

Apesar de permanecerem no anonimato os poetas da nova geração já apontam o principal fator para se escrever uma boa poesia: inspiração. Indo mais para o lado de seu xará, o Moraes, do que para o do poeta Carlos Drumount de Andrade, Vinícius Longo destaca o instante como uma boa forma de inspiração. "O estado do mundo é a minha maior inspiração! Não apenas o lado ruim, mas as coisas positivas que tem brotado. A poesia continua a me encantar assim como a fotografia, que se tornou minha outra paixão recentemente. Pois ambas lidam com o mesmo objeto: o instante! O instante do beijo, do sentimento do amor que faz dizer coisas lindas. Do ódio ao ver o filho morto por uma bala perdida e o texto que lhe sai da boca, comovido de emoção. A vida é poesia o tempo todo!", destaca.
A poesia não tem hora nem lugar certo para acontecer. A inspiração pode vir tanto ao se ver o por do sol do Arpuador quanto ao ver os olhos lindos da mais bela das gaúchas em São Luiz Gonzaga. Falo em São Luiz porque não poderia deixar de mencionar a pessoa que me inspirou a fazer essa matéria, meu amigo e poeta Felipe Brem, que me deixou inúmeros ensinamentos e lembranças. Algumas delas foram as diversas noites em que ficamos conversando sobre Charles Bukowski, poesia e outros autores (além das mulheres) nos barzinhos da vida. Infelizmente ele não está mais aqui para entrevistá-lo sobre o assunto (com certeza renderiam muito mais páginas), portanto deixo uma de suas poesias, publicadas no livro Medo de Amar:
Quem vem caminhando
pelo mesmo caminho que ando,
sozinho, sonhando acordado,
com passos rasos,
olhando as estrelas,
que não brilham mais.

Quem vem cantando baixinho,
do meio do nada,
ao longo da estrada,
que estou a andar.

quem chora ao meu lado
parece cansado de tanto chorar
lágrimas de amor,
que brilham forte,
mesmo com pouca luz lunar.

Sou eu no futuro,
fantasma obscuro,
fantasma calado.
Fantasma do horror,
fantasma do medo,
fantasma do louco,
fantasma da vida,
fantasma da morte,
fantasma do amor.