Encalhados
Trump não consegue paz com o Irã, com os democratas, com a imprensa e, menos ainda, com os comediantes
Capas de jornais internacionais sobrepostas, incluindo The Washington Post, The Washington Times e Daily Mail (Reprodução)
Por Lucas Mendes
A economia mundial encalhou no estreito de Ormuz e, com ela, o fim da negociação. Trump está encalhado lá e em casa com pesquisas nos trinta, derrotas judiciais, eleitorais, inflação correndo solta, gasolina a quatro dólares o galão.
Por que não começar a desencalhar num poderoso ninho de inimigos, como no jantar no histórico “White House Correspondents’ Dinner”? Este foi o nome de batismo em 1921, quando o evento foi criado pela associação dos jornalistas que cobriam a Casa Branca.
A economia americana bombava, os imigrantes chegavam, os jornais, revistas e rádios prosperavam, o New York Times e o Washington Post começaram a circular na costa oeste, muitos tinham correspondentes em Washington, as agências AP (Associated Press) e UPI (United Press International) cobriam o país.
A pauta dos criadores do jantar era promover um encontro anual com o presidente e seus assessores para uma noite de confraternização, conexões e defesa da democracia.
Toparam, mas o presidente Harding deu o bolo, não foi a nenhum dos jantares durante o mandato. Depois dele, todos os presidentes vieram pelo menos uma vez. Nixon, um caçador de jornalistas, compareceu a dois.
Trump, como Harding, não compareceu a nenhum jantar no primeiro mandato e os dois, por diferentes motivos, estão nas listas dos cinco piores presidentes americanos.
Vinda de Obama, Serth Meyers e comediantes no jantar
Depois de Nixon, começaram a vir os comediantes para dar um tempero no cardápio. Animavam a noite, democratas e republicanos riam juntos.
Ronald Reagan ria das piadas sobre a velhice dele, Bill Clinton sobre as prevaricações políticas, Monica Lewinsky não tinha entrado em cena, Stephen Colbert temperou George Bush com pimenta malagueta e criou constrangimento, Seth Meyers fritou Obama e os dois fritaram Donald Trump, que estava na plateia como convidado. Ele tinha criado a mentira sobre o nascimento do presidente na África e Obama mostrou a foto do pai dele, o Rei Leão no filme da Disney, democratas e republicanos riram, Trump não. A fritura queimou tanto que nunca mais teve coragem ou disposição de voltar quando foi eleito presidente. Deu quatro bolos. Naquela noite, cristalizou a esperança dele de ser presidente e se elegeu cinco anos depois.
Sábado passado seria a primeira participação dele no jantar como presidente. A sala estava lotada como nos tempos de Reagan e Obama, grande expectativa. Trump parecia feliz na mesa ao lado de Melania, com a vibe do salão e com o discurso que tinha preparado, mas não quis saber de comediantes. Trouxe o famoso mentalista, Meme Oz, amigo e capaz de interpretar expressões faciais, corporais e até ler os pensamentos da audiência. Ele estava debruçado ao lado do presidente, explicando ao casal um dos truques, quando começaram os tiros na sala ao lado, altos e assustadores. Pela terceira vez, um inimigo estava disposto a tudo para matá-lo.
Pouco depois, Trump convocou os jornalistas para a sala de imprensa da Casa Branca. Calmo, sem histórias mirabolantes, contou que seu discurso seria de paz e reconciliação dentro do espírito da reunião. Revelou um trecho, realçando que naquela sala estavam republicanos, democratas, progressistas e conservadores, adversários políticos, todos cordiais e bem humorados num encontro inédito durante o governo dele.
Disse que queria voltar para continuar o evento depois do atentado, fazia questão de voltar logo, em menos de um mês, mas gostaria que fosse no salão de festas que está construindo na Casa Branca, imenso e mais seguro, mas só ficará pronto daqui a quatro anos. Aproveitou para justificar o imenso custo do projeto.
Desfez tudo no dia seguinte, numa entrevista, dizendo que a culpa do atentado contra ele e de outros atentados violentos era dos democratas.
Encalhados até quando? ◼

Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos.
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.





