Mapa Mundi: o grande tabuleiro

O multilateralismo seria agora uma pálida sombra do passado?

Atualizado em 24/04/2026 às 07:04, por Colunista.

Captura de tela de um site exibindo um mapa interativo do Oriente Médio, com foco no Irã e países vizinhos. O mapa mostra diversos ícones coloridos (vermelho, amarelo e preto) indicando eventos militares, como ataques aéreos, mísseis, drones e operações navais. À esquerda, há uma legenda explicando os símbolos. No topo, aparecem menus e opções de visualização (mapa, satélite, híbrido).

Mapa da guerra no Irã em tempo real (Reprodução iranwarmap.com)


Por Sonia Blota*

Neste jogo de xadrez chamado Mapa Mundi, há movimentos planejados, anúncios de cessar-fogo e tentativas de reposicionamento internacional. No plano humano, porém, a realidade é de continuidade da crise: deslocamento, destruição e insegurança

A era dos valentões. O dia 28 de fevereiro recolocou Donald Trump no centro de uma engrenagem diplomática tão delicada quanto volátil. Depois de chacoalhar o mundo com o tarifaço, Trump decidiu, junto com o governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu, atacar o Irã — ataques que, segundo ele, levariam apenas duas semanas, no máximo. Entre ameaças e recuos, o presidente dos Estados Unidos passou a defender conversas de cessar-fogo após forte pressão internacional. 

Mas o Irã afirmou que não participará de nenhuma negociação até que os Estados Unidos suspendam o bloqueio naval. A Casa Branca busca pressionar Teerã a aceitar suas condições, asfixiando o país economicamente. Noventa por cento das exportações de petróleo do Irã passam pelo Estreito de Ormuz. Com o bloqueio americano, Teerã estaria perdendo cerca de 400 milhões de dólares por dia em exportações de petróleo.

Além do programa nuclear iraniano, o estreito tornou-se um dos pontos centrais das negociações, já que o Irã pretende controlar a passagem, enquanto países do Golfo e outras nações defendem que essas águas devem permanecer de livre navegação internacional. O problema da política americana de asfixiar o Irã é que ela também retira o oxigênio da economia global. Petróleo, gás, fertilizantes e outras matérias-primas são amplamente exportados pelo Golfo Pérsico. O bloqueio de Ormuz — tanto pelo Irã quanto pelos Estados Unidos — já elevou o preço do petróleo em mais de 40%.
 

Palestina

Enquanto isso, no Líbano, especialmente nos arredores de Beirute e no sul do país, o cenário permanece de devastação. Prédios destruídos, infraestrutura comprometida e famílias deslocadas compõem um quadro que desafia qualquer narrativa de estabilização imediata. Nesse caso, trata-se de outra frente de negociação.

Com o discurso de combater o Hezbollah, milícia xiita apoiada pelo Irã, a ofensiva militar de Israel deixou cerca de 2.500 mortos no Líbano, incluindo quase duzentas crianças. Já são mais de um milhão de pessoas que abandonaram suas casas.

Libaneses temem que o sul do país se torne uma nova Faixa de Gaza. No enclave palestino, dois anos de bombardeios israelenses mataram mais de 72 mil palestinos e deixaram ruínas por todo o território. Segundo a ONU, o custo de reconstrução é estimado em quase 360 bilhões de reais ao longo de dez anos.

Na Cisjordânia, a violência também se agrava. Um estudante de 14 anos e um homem de 32 foram mortos após colonos israelenses abrirem fogo perto de uma escola. Famílias denunciam bloqueios impostos por Israel ao acesso de crianças palestinas às salas de aula.
 

Nesse novo “jogo de xadrez” geopolítico, o jornalismo ocupa uma posição ao mesmo tempo estratégica e vulnerável.

Sonia Blota


Se, por um lado, cresce a demanda por informação qualificada, contextualizada e confiável, por outro, os jornalistas passam a atuar sob pressões cada vez mais intensas — sejam elas políticas, econômicas ou digitais, com a avalanche de desinformação. A cobertura internacional exige a leitura crítica de cada um dos movimentos das peças do poder e muita responsabilidade diante de narrativas em disputa. 

Nesse tabuleiro, o jornalista é o mediador essencial entre fatos e a realidade de cada lado. É sempre reafirmar sua credibilidade e independência para não cair em armadilhas de interesses alheios que tentam, a todo momento, redesenhar as regras do jogo. ◼
 

*Sonia Blota é repórter, apresentadora e correspondente internacional da Rede Bandeirantes na França