Receita de resistência

Lucas Mendes estreia “Mais Manhattan” analisando a influência da mídia e do humor na oposição política americana

Atualizado em 01/02/2026 às 10:02, por Colunista.

Captura de tela de um programa de notícias da MSNBC. À esquerda, uma apresentadora de cabelo curto escuro aparece sentada em estúdio. Ao fundo, há um cenário em tons de azul e vermelho. À direita da tela, aparece uma imagem de uma grande manifestação com várias pessoas segurando cartazes de protesto. Sobre a imagem do protesto, há o texto em letras brancas: “WHAT DEMOCRACY, IN FACT, LOOKS LIKE…”. Na parte inferior da tela, um banner de “Breaking News” informa: “BOVINO TO LEAVE MN AS OUTRAGE GROWS AFTER FEDERAL AGENTS KILL MN ICU NURSE”. Também aparecem o logotipo do programa “The Rachel Maddow Show” e da emissora MSNBC.

Programa de notícias semanal The Rachel Maddow Show, da MSNBC


Por Lucas Mendes

Pela manhã, o sóbrio New York Times descreve as insanidades da véspera e comenta sobre a saúde física e mental do Trump. À noite, na rede ABC, o comediante Jimmy Kimmel faz um resumo curto e grosso com a pergunta: “O que está encolhendo mais depressa, o cérebro ou o pinto do nosso presidente?” O público gargalha e a audiência em casa dorme aliviada pelo humor.

Stephen Colbert, no mesmo horário na CBS, bate no presidente com o mesmo veneno. Jon Stewart bate ainda mais firme. Desde as rádios, no século passado, os comediantes entraram no cenário político americano e são cada vez mais influentes. Trump conseguiu tirar Kimmel e Colbert do ar, mas os dois voltaram com audiências maiores.

Os comediantes aliviam, mas não seguram Trump. Desde a posse dele, a resistência com mais resultados vem das marchas de protestos. 

O SRR, Sistema de Resposta Rápido, foi criado na Califórnia em 2001, quando as leis reforçaram os poderes de prisão e deportação da Polícia Federal — uma estrutura de proteção aos imigrantes. Os participantes, todos voluntários, têm uma rede de telefones de alerta sobre a presença do ICE na vizinhança, aprendem como filmar as operações, se educam sobre os direitos do imigrante e tem uma verba para casos de prisão. 

O SRR já está em mais de 4 mil cidades e, em Minneapolis, desmontou as versões oficiais sobre os abusos do ICE com a ajuda de duas armas indispensáveis: o celular e o apito.

Filho de imigrantes mexicanos, Balthazar Henriques, líder comunitário na Villita, Little Village, perto de Chicago, saiu de casa apitando quando os agentes chegaram lá em setembro. Em poucos dias, ele contava sua história nas televisões — e o país inteiro apitava.

Alex Pretty fazia parte do SRR em Minneapolis e, antes de ser fuzilado, aparece com o apito na boca e o celular na mão, dirigindo o tráfego. Durante a morte dele e de Renee Good, ouvimos tiros e apitos incessantes.

Antes das redes digitais, tínhamos três redes — CBS, NBC e ABC — e dois jornais, NYT e Washington Post, capazes de publicar matérias investigativas que denunciavam discriminação racial, guerras e abusos de Nixon. Hoje temos repórteres, âncoras e comentaristas tão competentes quanto os que denunciaram discriminação racial, guerras e abusos de Nixon.

Voz Anti-Trump

Com as novas tecnologias, o poder da mídia não diminuiu, mas se diluiu. No imenso bolo midiático, os conservadores, trumpistas e indecisos têm uma liderança de 53% contra 47% dos liberais. 

Essas comparações de peso, influência e uso de algoritmos nas mídias são difíceis. Rachel Maddow aparece em pesquisas de TV como a voz anti-Trump mais relevante, mas os apresentadores da Fox têm maior audiência. Maddow, desde o começo do segundo mandato de Trump, dedicava quase metade do programa dela aos protestos contra o ICE. Ela é culta, bonita, carismática, lésbica, capaz de tecer e destrinchar histórias complicadas — e contribuiu com esta mobilização.

Ainda não surgiu um líder nacional capaz de comandar a resistência. O Congresso Republicano bloqueia projetos, o presidente só investiga inimigos e não deixa investigar a imensa corrupção em volta dele. Apesar da aprovação inicial, Trump cai nas pesquisas e perde na Justiça. Há 600 processos contra diferentes ministérios e agências.

Qual é a melhor forma de conviver e confrontar um governo como o do Trump? Revoltar? Aceitar? Deprimir? Rir com os comediantes? Decidi perguntar à IA (inteligência artificial), que deu uma resposta longa e sintetizou: “Viver bem é o maior ato de resistência.” Nem indignação constante nem aceitação pacífica. Rir foi válvula de sobrevivência durante Nixon, Bush, Trump 1.0 — e faz parte da resistência emocional ao Trump. Ai ai ai.
 

*Lucas Mendes é jornalista, criador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos. 
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.